TAHAN & ERDÖS: Enredo dos números

“A divisão entre a matemática pura e a matemática aplicada está cada vez menor com o uso dos computadores e não é impossível que a ficção dos números se torne realidade”

O Homem Que Calculava, de Malba Tahan (Editora Record) é um clássico da literatura juvenil que está em sua 64ª edição. É provável que tenha alcançado mais leitores que alguns dos principais e aclamados livros de Monteiro Lobato, outro autor brasileiro que se dedicou ao público jovem. Sim, ao contrário do que muita gente pensa, Malba Tahan não nasceu num oásis longínquo em 1885, mas é apenas o pseudônimo do professor de matemática Júlio César de Mello e Souza, carioca que viveu entre 1895 e 1974.

Esta agradável confusão foi criada por ele mesmo com o auxílio do poderoso Irineu Marinho que começou a publicar em 1925, no jornal A Noite, a coluna “Contos de Malba Tahan”. O sucesso foi enorme e, autorizado por Getúlio Vargas, Júlio César conseguiu uma carteira de identidade com o próprio pseudônimo! Apesar disso, alguns de seus relatos biográficos dizem que ele se arrependia de não seguir a carreira militar do pai, pois pelo menos já “estaria arranjado financeiramente”. (E me pergunto se é verdade, pois não creio que ele contribuísse com as Forças Armadas tanto quanto contribui com a literatura juvenil, pois este professor incansável era detentor de uma didática e dedicação pacientes e eternas ao ensino.) Morreu sozinho num hotel, provavelmente de infarto, depois de falar a normalistas de uma escola do Recife sobre a arte de contar histórias.

Em sua obra O Homem Que Calculava é narrada a história de Beremiz Samir, calculista habilidoso, capaz de contar de uma só vez as abelhas de um enxame, os galhos, folhas e frutos de uma árvore e, claro, resolver problemas de difíceis soluções. Esta última qualidade de Beremiz deve ter sido o motivo principal do sucesso do livro, já que todos gostamos de ouvir e ver uma resolução inteligente e, mais que isto, certa. Certeza: este é o mundo da matemática.

Mas, ainda que seja uma ficção, O Homem Que Calculava não está tão distante assim da realidade como pode parecer à primeira vista. O mundo está mais cheio de homens que “calculam” do que supomos. Algumas estimativas apontam em 1 milhão o número de teoremas publicados por ano em revistas especializadas em matemática. Alguns desses trabalhos têm apenas um ou dois terráqueos capazes de entendê-lo! A leitura de um artigo científico pode ser mais difícil do que se imagina. Este que vos escreve tem verdadeiro pavor, quando lendo uma demonstração, depara-se com a expressão, por vezes arrogante: “é fácil ver que”. Fácil pra quem cara-pálida? Só se for para mentes brilhantes como a do matemático húngaro Paul Erdös.

Prodígio desde a infância, Erdös (pronuncia-se erdoshi) foi um daqueles cientistas de filmes de ficção de segunda categoria: feio, magro, freqüentemente mal vestido e que vivia no “mundo da lua”. Não sabia descascar uma laranja, nem cozinhar arroz, muito menos dirigir carro, não tinha filhos, nem mulher (que chamava de patrões). Gostava de parafrasear Proudhon que um dia disse que a propriedade privada era um roubo. Para Erdös, “a propriedade privada era uma chatice” e freqüentemente doava o seu salário para pessoas que mal conhecia.

Como descreve Paul Hoffman na biografia de Erdös, O Homem Que Só Gostava de Números (Editora Gradiva, Portugal) ele tinha uma mala com meia dúzia de roupas e blocos de anotações com problemas ainda não resolvidos. Um dia acordava pela manhã, tomava seu café (para ele “um matemático é uma máquina de transformar café em teoremas”) e decidia atravessar o Atlântico para resolver um problema com algum outro cientista. Ao chegar se apresentava: “Bom dia, o meu cérebro está aberto. Seja n maior ou igual a X…”. O matemático-anfitrião era então metralhado por uma incrível energia revitalizadora e, invariavelmente, o hospedava em sua própria casa, onde Erdös costumava conversar de matemática “até quando parecia dormir” e nos horários mais despropositados. Depois que se cansava (raramente) ou cansavam dele, se mandava para mais uma investida similar.

Apesar de esgotar os anfitriões, Erdös era muito bem recebido, mesmo porque uma conversa com ele por cinco minutos poderia muitas vezes levar o interlocutor a escrever seu trabalho mais original. Erdös publicou (sozinho ou em parceria) 1.475 artigos científicos. Tendo morrido em 1996, aos 83 anos, e tirado seu PhD com 21 anos, ele tem a incrível taxa de 23,8 artigos publicados por ano (quase dois por mês), isto durante toda a sua vida profissional, pois a famosa curva gênio-idade, que prevê a queda da produtividade científica depois dos 35 anos, não serviu para ele, que continuou publicando durante toda a vida. Em compensação, o fato de nunca ter se casado e ser celibatário deve ter mantido seus níveis de testosterona altos (mais sobre este assunto em breve no artigo Gênios e Criminosos) e isto o ajudou a manter-se “vivo”. Para ele, estava morto quem não fazia, ou parara de fazer, matemática. Quando alguém realmente morria tinha “ido embora”.

O prestígio das publicações de Erdös continua alto até hoje. Assim, se você publicou com ele você tem o chamado número de Erdös 1, mas se publicou com quem publicou com ele, então você tem o Erdös 2. Bem, “é fácil ver que”, o número Erdös 3 significa ter publicado com alguém que publicou com outro que publicou com Erdös. Parece que, atualmente, o maior número de Erdös pertencente a um matemático ainda trabalhando é o 7. Os outros têm que se contentar com Erdös infinito… Tal honraria para um cientista só é semelhante a uma citação feita para obra de Richard Feynman (físico norte-americano), nos moldes bíblicos: “Livro II, capítulo 3, versículos 8-16”.

Apesar de “alienado” no mundo das certezas matemáticas, Erdös era, em geral, muito atencioso com as pessoas e bastante atento à política e história. Aliás, quase foi vítima da primeira legislação anti-semita importante na Europa do pós-Primeira Guerra Mundial, que, implantada em 1920 na Hungria, limitava a admissão de judeus na universidade a 6 por cento, que era a percentagem que os judeus representavam na população total. Felizmente, em 1928 a legislação foi afrouxada para que vencedores de competições intelectuais fossem admitidos na universidade sem vestibular e Erdös, claro, lá estava. Note, caro leitor, que há 85 anos atrás o sistema de cotas era fruto da fobia aos judeus, mas hoje, dizem os bem-pensantes e politicamente corretos, é apenas um modo justo de fazer “reparações” (hum….).

Um dos grandes problemas que Erdös enfrentou por causa da política atribulada de sua época foi que, a certa altura, não podia voltar para a Hungria comunista para ver a mãe, e nos Estados Unidos já lhe negavam a reentrada, pois: a) nos anos 40 tinha sido fichado pelo FBI por rondar de forma suspeita uma base de transmissor de rádio militar (na verdade ele, com outros dois matemáticos, um deles um “temível” japonês, haviam se perdido pensando, na resolução de um problema); b) por ser húngaro (foi interrogado sobre a leitura de Marx ou Engels) e c) por ter correspondência suspeita com a China comunista (ele trocava cartas com matemáticos chineses, uma típica começava assim: “Caro Xiang Xao, seja p um número primo ímpar…”). Felizmente, em 1955, Paul Erdös conseguiu um passaporte especial para poder entrar e sair da Hungria quando bem entendesse e o Tio Sam (como chamava os EUA) ficou mais acessível com o fim do macarthismo.

Mas será que os trabalhos de Erdös têm alguma utilidade? Um dos maiores matemáticos do século XX, G. H. Hardy orgulhava-se que seus próprios trabalhos não fariam a mínima diferença para o mundo. Mas a divisão entre a matemática pura e a matemática aplicada está cada vez menor com o uso dos computadores e não é impossível que um dos trabalhos de Hardy, assim como os de Erdös, acabe um dia tendo aplicações importantes no “mundo real”, incluindo prognósticos para ações de bolsa de valores, desenvolvimento de algoritmos para otimizar o uso de telecomunicações ou ainda para economizar combustível de aviões espaciais. Isto é, aqueles problemas que para gênios como Erdös ou Beremiz Samir são fáceis de ver que… Erdös faleceu como Júlio Malba César Tahan, palestrando (“pregando” segundo ele) até os seus últimos dias e maravilhando a todos com suas certezas, ensinamentos e alegria de viver.

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Publicado originalmente num especial para o Jornal Opção

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2 Respostas

  1. Isis Says:

    Bacana seu blog… liga ciência, ecologia e literatura… Voltarei mais vezes.

  2. paula Says:

    é uma historia muito emocionante e maravilhosa

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