O sensacionalismo da grande mídia é execrado por quase todo mundo. Dizem que não colabora para informar nem “conscientizar” o público. No Brasil, em geral, é usado nas notícias sobre crime e violência. Na minha juventude o Notícias Populares ostentava orgulhoso o jargão “se espremer sai sangue”.
No início dos anos 90, o SBT montou o Aqui Agora, um telejornal que exagerava na pauta de “polícia”, mas tinha lá sua graça, em especial nas manchetes. Uma vez participei do fechamento da edição e elaboração das chamadas. Foi quando Zélia Cardoso de Melo (lembram?) anunciou que estava grávida do Chico Anísio. Manchete proposta: “Milagre: mulher de chico fica grávida”, porém foi usado “Zélia de barriga cheia e vapt, vupt”. Em outra feita, o jornal acompanhara a investigação do homicídio de uma protética. Chamada da matéria final: “Assassinato de protética: descoberto o pivô do crime”. Mau gôsto?!? Talvez melhor que certos jornais que se consideram “transformadores” do mundo.
Os tablóides ingleses são sempre acusados de sensacionalismo. Alguns destacam a violência, mas os bons apenas estampam com estardalhaço (e ironia) a conduta inapropriada de algum fast-famoso, político ou membro da família real.
Concordo com Reinaldo Azevedo quando diz que se Brasília tivesse um tablóide “inglês”, a democracia brasileira amadureceria mais rapidamente. Assim, por exemplo, episódios como o da mansão que abrigava a “República de Ribeirão Preto” seriam instantaneamente descobertos, explicados com clareza e apropriadamente (des)troçados. Não há muito que dizer, quando a verdade vem estampada, nua e crua.
Bem, mas o que tudo isto tem a ver com ciência? Em 10/12/2006 o blog Ciência e Idéias reclamou da manchete do The Independent sobre o genoma: “O livro da vida está re-escrito”. Achou exagerada. Mas e que tal o montante de recursos colocado nas pesquisas do genoma? Não é descomunal também? Não tenho certeza, mas deve ter sido um cientista que criou o termo “livro da vida”. E afinal, o que há de tão errado assim nesta manchete? Ela apenas faz troça da crença de certos biólogos moleculares que se dizem conhecedores da verdade absoluta “estampada” nos genes. Além do mais, novas descobertas reescrevem sim, a ciência e suas certezas (algumas são teorias ou hipóteses, mas tratamos como certezas ou fatos).
Ano passado foi lançado um divertido e instrutivo livro de divulgação científica: Giant Leaps: mankind’s greatest scientific advances… (tradução alternativa: Saltos gigantescos: os maiores avanços científicos da humanidade…). É obra do editor John Perry do The Sun, certamente um dos melhores tablóides ingleses, e de Jack Challoner do Science Museum. O livro (143 páginas) tem o formato de um tablóide e é um conjunto de supostas “primeiras páginas” e reportagens, à maneira do The Sun, sobre grandes acontecimentos e descobertas científicas durante toda a história do planeta. Exemplificando:
O primeiro registro é datado de 23 de Novembro de
Em 4.500 anos aC o destaque é o “The New Roller: círculos aparafusados podem ser a resposta para o pesadelo do transporte no mundo” que explica a roda, trazendo ainda o desabafo de moradores das montanhas: “(…) descer é fácil! eu quero ver no final do dia, voltar pra casa”. Imperdível.
Nas edições de 420 e
Já em 1455 dC, a manchete é sobre a invenção da imprensa: “Inkrível [com k do alemão]: Invenção da imprensa põe fim a idade das trevas” e comemora que 180 bíblias podem ser impressas em 3 anos, o mesmo tempo de copiar uma à mão.
Em
Em 1796 o jornal retrata a luta do Dr. Edward Jenner contra a febre amarela e a reclamação da população contra as vacinas na manchete: “Médico maníaco dá doença para criança em experimento diabólico”. “Primeira foto da primeira foto” é a manchete sobre o milagre da imagem feita por uma câmera (1826).
Em 1859 no lançamento da Origem das Espécies: “Macaco maluco: o cientista insano, Darwin, reconhece que nós todos descendemos dos macacos”. Claro, há uma nítida distorção da realidade sobre o que realmente Darwin escrevera (infelizmente, ainda hoje persistente), mas John Perry em entrevista ao podcast da Nature afirma, que a manchete provavelmente refletiria a opinião dos leitores do jornal em 1859. Faz sentido.
Sobre a morte de Alfred Nobel (1896) a manchete foi: “Sr. Dinamite está morto”, com a lembrança de um crítico “ficou rico encontrando novos caminhos para matar mais gente, mais rápido que nunca”. No entanto, há a crença que a dinamite trouxe muita tristeza ao Sr. Nobel, infelizmente, como diria o poeta “a dor da gente não sai no jornal”.
Em 17 de novembro de
Em 1949, veio o computador: “O primeiro computador…e cabe em apenas numa sala”. Na descoberta do DNA (1953): “Estrutura da Vida” e sobre a polêmica de Watson & Crick que teriam roubado a idéia de Rosalind Franklin: “Franklin, minha cara…nós não te demos a maternidade”.
O livro também vai para o futuro. Em 2034, prevendo o derretimento das geleiras polares, há uma foto do Palácio de Westminster alagado com a manchete: “O Palácio de WETminster” [em inglês, wet quer dizer molhado]. Em 2155: “Homens se perdem em viagem desastrada no tempo”. A última é de 2306 “Nós não estamos sozinhos: líderes mundiais confirmam primeiro contato com alienígenas”.
Para quem gosta de divulgação científica aconselho, com fervor, o livro. As informações das reportagens são precisas e é bastante provável que não receba uma edição em português, pois algumas chamadas são quase intraduzíveis.
Desta forma, permito-me fazer as manchetes sobre as descobertas/invenções no Brasil e convido o leitor para participar da brincadeira usando os comentários. Eu começo:
Oswaldo Cruz combateu o mosquito e fabricou as primeiras vacinas (febre-amarela, varíola), tendo que aturar a polêmica de macular o braço de nossas moçoilas. Minha manchete seria: “Dr. Mata-mosquito adora dar picadas”.
Carlos Chagas descobriu tudo sobre a doença transmitida pelo barbeiro e que leva até o seu nome. Para ele: “Barba, Cabelo e Bigode”.
Vital-Brazil desenvolveu o soro antiofídico, que combate o veneno de cobras: “More com a sogra em segurança”, “Agora já é possível vivermos na democracia” ou se o tablóide for esquerdista: “Diogo Mainardi já pode morder a língua”.
Paulo Vanzolini, compositor e descritor da teoria dos refúgios, que permitiram às espécies terem mais tempo para se especiarem em alguns locais da Amazônia: “Ronda na Amazônia descobre espécies refugiadas”. E completando com: “Evitando o degelo, espécies dão a volta por cima”.
César Lattes apresentou a partícula méson-pi ao mundo: “Pipi brasileiro faz sucesso e melhora a qualidade do currículo da ciência nacional”; “Méson-Pi, Méson-Calabresa, alimenta a física brasileira”.
Nise de Oliveira descobriu que artes podem ajudar no tratamento psiquiátrico: “Arte moderna explicada: É tudo coisa de maluco, diz pesquisadora”.
Marilena Chauí que publicou “A nervura do Real: imanência e liberdade em Espinosa” um catatau de 1240 páginas, fica com a manchete: “Quase tudo de quase nada”.
Só para encerrar este longo post,
Um popular desabafou: “O avião não sairia do chão se Ronaldo fosse o piloto!!”.
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Reforço o convite para o leitor fazer sua manchete à moda The Sun de fatos destacáveis de nossa atividade científica. Um dia a gente chega lá, para o bem da ciência e da democracia.


janeiro 28th, 2007 at 9:26
This is very nice blog. do you konw Mozilla Firefox web browser?I really loved it,I hope you may want to download and try. thank you.
janeiro 30th, 2007 at 11:05
Esse ficou hilário.
fevereiro 2nd, 2007 at 11:58
oi ronaldo, obrigada por avisar. esse exercício de fazer manchetes é divertido! você conhece o “the onion” (http://www.theonion.com/content/)?
quanto à parte que se refere ao meu texto, não posso deixar de comentar. os gastos astronômicos investidos no projeto genoma podem facilmente ser alvo de discussão, mas não acho que sirvam de desculpa para que se diga qualquer coisa na imprensa. e concordo que muitas descobertas fazem emendas às teorias vigentes, e quem sabe até as derrubam – mas não é nem de longe o que aconteceu na descoberta a que me referi. pelo visto não consegui explicar com clareza.
abraço, vou dar mais uma olhada no seu blogue, que não conhecia.
novembro 20th, 2007 at 13:13
A-M-E-I esse post. Quizera eu ter tanta criatividade e destreza com as palavras como você tem.
Grande abraço dessa mais nova leitora assídua sua!
dezembro 5th, 2007 at 10:03
Oi Emilia, a criatividade é apenas 5% do trabalho do cientista ou do divulgador de ciência, 95% é esforço puro. Mãos à obra, também.