Numa das mais clássicas definições sobre a ciência, o físico americano Richard Feyman (talvez o mais autêntico e bem humorado entre os cientistas de primeiro time) disse que ela “é um processo de aprendizado sobre a natureza em que, diferentes idéias sobre como o mundo trabalha são medidas contra a observação”. Sim, mas os sentidos e as aparências nos enganam. Só pra ficar no exemplo mais batido, dizer que a Terra é que gira em torno do Sol era, aparentemente, um contra-senso enorme. Foram observações mais acuradas que mostraram como “o céu funciona”.
Mas fazer a verdadeira ciência é lutar junto à fronteira do desconhecimento. Não é uma briga das mais fáceis, na verdade é uma guerra sem fim, que tem que ser travada por soldados-cientistas muito bem preparados e equipados (para gênios como Feyman, bastam lápis e papel…). Além do desconhecido, outro inimigo da ciência e talvez, mais forte, é a ignorância pura, simples e até desinteressada. Fatos já estabelecidos, teorias já comprovadas ou amplamente refutadas permanecem ignoradas pela maioria das pessoas.
Em conseqüência, muita informação que já foi gerada ainda não foi apreendida ou assimilada em nosso cotidiano. Trata-se de um “analfabetismo científico” e contra ele as armas são claras: divulgação e educação científicas. Se você está lendo este texto já tem um modesto exemplo de divulgação. Já a educação científica é menos conhecida, mas tão importante quanto, pois tem o papel de mostrar o prazer de conhecer as ciências, enquanto educa as pessoas (em especial crianças) para uma atitude científica, ou seja, para inquirir com conteúdo a própria ciência.
Aqui na Cidade do Cabo (África do Sul), há um lugar onde divulgação e educação colaboram com o conhecimento dos oceanos e seus organismos: Two Oceans Aquarium, ou Aquário Dois Oceanos, local que verdadeiramente faz jus ao nome, já que mostra organismos marinhos dos Oceanos Atlântico e Índico, que à bem da verdade não se chocam na Cidade do Cabo, mas sim a uns 400 km ao leste daqui. O Two Oceans possui aquários gigantescos, como o famoso tanque de predadores com mais de 2 milhões de litros de água, 3 tubarões (Carcharias taurus), e mais uma centena de belos exemplares de atuns, merlos e outros. Todos vivendo, como se diz por aí, “em harmonia” (oAu quase, pois é possível ver alguns peixes no tanque com arranhões provocados pelas mandíbulas dos tubarões que têm de vez em quando acessos de fúria…).
Há ainda o tanque onde crescem as impressionantes kelps (Ecklonia maxima, na foto acima), uma macro-alga muito comum na costa sul do continente africano, explorada comercialmente em alguns locais para a fabricação do ágar (aquele meio de cultura usado nas aulas de microbiologia) e outro enorme recinto com quatro focas. Há também os aquários propriamente ditos, específicos para alguns grupos: caranguejos raros, moréias de tamanho inimaginável mesmo pra quem as estudou, simpáticas arraias e os famosos peixes-palhaços, o “Nemo” do filme, logo na entrada (em apenas um aquário existem cerca de 300 deles).
Bom, o leitor deve estar a se perguntar, mas o que faz este lugar tão especial? Ele não é apenas um zoológico, como tantos no Brasil (embora submerso, e destes temos poucos) onde é possível ver os bichos, enquanto se ouve barbaridades do tipo: “uma vez lá na fazenda matamos uma onça como esta”, “Ei tigre!, levanta aí….faz alguma coisa”, “nossa! como o camelo é sem graça” e na frente do recinto do lobo-guará: “olha a hiena! Igual aquela do ‘Rei-Leão’”. Todas estas entreouvidas por mim e pela Adriana no zoológico de Brasília e no parque ecológico de Americana (SP).
No Two Oceans é diferente (acompanhe as fotos). Há grande quantidade de informação disponível e o melhor, para o grande público, sem precisar ler muita coisa…. Assim há um aquário que simula um ambiente rochoso e costeiro influenciado pelas marés (a água entra por detrás em intervalos de 5 a 10 minutos) e que contém claro, espécies deste tipo de ambiente. Outro menor tem o vidro montado como uma espécie de grande ocular e dentro dele você pode (finalmente) enxergar zooplâncton, estes pequenos invertebrados que vivem em suspensão na água e tem um papel fundamental na teia trófica, pois controlam a produção primária e servem como alimento de peixes, especialmente na fase larval.
Em outra parte há um imenso recinto simulando um ambiente de transição entre a água doce e a salgada, recriado com simplicidade e muito bom-gosto (nota-se o aproveitamento de material natural, como bambus). Ainda, as kelps estão sempre em movimento, devido às ondas que são artificialmente criadas em seu aquário, idem para o de pingüins que se divertem muito. Durante a alimentação (em horário “britânico”), os tratadores usando microfones e/ou amplificadores de voz, explicam aos visitantes, o hábito de vida dos animais. Num sábado à tarde, contei 90 pessoas (sentadas numa espécie de mini-anfiteatro) ouvindo as explicações do funcionário sobre os predadores. Ele ainda nos aconselhou educadamente (sem ditar regrinhas) a evitar comer certas espécies de peixe, pois seus estoques estariam sobre-explorados. Fui conferir a lista que eles entregam sobre estes peixes e a informação está atualizada e correta. Bravo!
Há ainda dois “balcões” onde é possível tocar os organismos, vê-los em microscópios e ainda ouvir as explicações dos monitores voluntários. Mas o meu local preferido é uma salinha de aula com mesas e cadeiras pras crianças, com desenhos pra elas pintarem, além de quebra-cabeças e jogos. Uma das paredes desta sala é o vidro do recinto das focas, que nadam sem parar. De vez em quando as crianças olham pro vidro, vêem as focas e tentam desenhá-las no papel. Um dia, quem sabe, a gente monta uma sala de aula desta lá em Anápolis (GO). Na água, muitos pirarucus, aruanãs e pintados. Afinal, sonhar não custa nada.
Ah, sim! O Two Oceans (http://www.aquarium.co.za) foi fundado em 1995 e é totalmente privado. Uma fonte me disse que seus proprietários nem pensam em vendê-lo pra construir uma fábrica, plantar soja ou mesmo montar uma faculdade particular. Ainda bem! Como é mesmo que se diz? Vida longa ao Two Oceans. A ciência, a economia e os ecossistemas agradecem.





