Um pouco sobre Matemática e Ciências (I de II)

O meu negócio é número” repetia uma personagem do humorista Jô Soares (no tempo que ele era engraçado) para ironizar o então ministro – forasteiro da Agricultura, o economista Delfim Neto. Afinal a Economia é uma ciência exata ou não? Roberto Campos que tem uma substancial obra econômico-política disse certa vez que os Ensaios Analíticos de Mário Henrique Simonsen era o livro que ele gostaria de ter escrito. Neste, os assuntos vão desde a associação entre matemática e música, passando pela teoria da relatividade e culminando claro, com economia (fico devendo uma resenha deste excepcional livro).

A Economia já foi denominada como a ciência irmã da Ecologia. A etimologia das palavras é similar: “nomia”: manejo, “logia”: estudo, “eco”: casa. Assim enquanto a Ecologia é o estudo da casa, a Economia trata de seu manejo. Uma das formas mais eficazes na conciliação destas disciplinas, buscando desenvolvimento e preservação, é através do uso de modelos matemáticos que são simplificações do mundo real, e às vezes servem como a hipótese nula para cientistas nos mais diversos campos do saber. Aliás, foi um destes modelos que auxiliou grandemente a Biologia e, posso dizer, o pensamento humano.

Um dos pioneiros da demografia, o reverendo Thomas Robert Malthus em seu livro de 1798, Ensaios sobre a População (título resumido) percebeu que a taxa de crescimento da população era dependente do próprio tamanho da população e cresceria numa razão geométrica enquanto a produção de alimentos cresceria apenas aritmeticamente, tornando-o escasso e causando a fome. Desta forma, segundo Malthus, um fato natural (o aumento da população) era causador da miséria. Não é preciso dizer que Malthus caiu em desgraça com a esquerda mundial, que inclusive era recém-nascida (note, o leitor, que a obra de Malthus é de 1798, 6 anos após o início da Revolução Francesa que pregava liberdade, igualdade e fraternidade). Depois, Marx usou e abusou de adjetivos nada agradáveis para Malthus. O malthusianismo reaparece de tempos em tempos, mas é sabido que a causa da miséria é má distribuição de renda, administração ruim, falta de desenvolvimento, etc…

À despeito disso, o modelo matemático de Malthus teve um papel crucial na Biologia, pois influenciou Charles Darwin que, depois de ter passado 5 anos (1831-1835) viajando o mundo no Beagle, coletando animais e vegetais, leu Malthus, ‘por distração’, e teve o vislumbre do mecanismo de evolução das espécies: a população (de bicho ou planta) é maior que a quantidade de recursos (alimento, luz, umidade), logo apenas aqueles que possuem as variações favoráveis à determinadas circunstâncias adversas sobreviverão e perpetuarão sua espécie, deixando descendentes. Estava deduzida a seleção natural como mecanismo de evolução. Este insight que Darwin teve lendo Malthus não foi tão casual como pode parecer à primeira vista, já que outro naturalista da época, Alfred R. Wallace, teve a mesmíssima percepção lendo o Ensaios sobre a População (há relatos de que Wallace o fez após devaneios de forte febre).

Apesar dos inúmeros exemplos que Darwin colocou no Origem das Espécies (1859) [download aqui], os evolucionistas divergiam em aspectos importantes relacionados à seleção natural e a origem das variações nas espécies, já que a genética no início do século XX estava apenas tomando forma (ninguém conhecia Mendel). Estas controvérsias só chegaram ao fim com os trabalhos de Ronald A. Fisher (1890-1962) que quantificou a evolução e a genética (Fisher é o considerado fundador da genética biométrica e da Estatística). Desta forma, a evolução (e o mecanismo da seleção natural) nasceu e amadureceu graças à matemática.

A matematização dos “objetos de estudo” e a metodologia da ciência como a conhecemos hoje, pode ser atribuída a Galileu Galilei (1564 – 1642). Um dos trechos mais repetidos de sua obra é: “A filosofia é escrita neste grandíssimo livro que está continuamente aberto diante de nossos olhos (eu digo, o universo), mas que não se pode entender se primeiro não se aprende a entender a língua e a conhecer os caracteres em que está escrito. Ele está escrito em língua matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem os quais é humanamente impossível entender alguma coisa; sem eles é como girar em vão por um obscuro labirinto”.

No mesmo ano da morte de Galileu, nasce Isaac Newton que 22 anos depois descreveria as leis da ótica, as principais leis da física e o cálculo infinitesimal. Este último também foi demonstrado independentemente por Leibiniz quase na mesma época.

Sobre os ombros dos gigantes”, Newton encerrou o trabalho sobre a separação de luz com um prisma e o enviou a Oldenburg, o secretário da recém criada Royal Society e, após analisado, o trabalho foi publicado no Philosophical Transactions, que na época era distribuído entre conhecidos pensadores e naturalistas de diversos países. Este texto é considerado o primeiro trabalho científico publicado numa revista especializada, pois tem tudo que a boa ciência precisa: narrativa das premissas (introdução), descrição dos procedimentos (material e métodos) e uma seqüência de argumentações (resultados, discussão e conclusão).

Continua…

Referenciado por:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Netvouz
  • DZone
  • ThisNext
  • De.lirio.us
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Internetmedia
  • YahooMyWeb

Uma Resposta

  1. Jairo Alves Says:

    Texto muito legal, mas a matemática também pode ser vista pelo prisma da natureza. Para conhecer este ponto de vista e saber se se Deus é um matemático., visite: http://dicasdojairo.blogspot.com/p/deus-e-matematico.html

Deixe um Comentário

Observe: Comentário com moderação, é necessário ativá-lo e pode demorar um pouco. Não há necessidade de reenviar o seu comentário.