Os desenhos animados inspirados ou não em fábulas antigas sempre trazem animais em seus enredos. Às vezes são figurantes como o grilo falante de Pinóquio que representa o lado bom da consciência do boneco de pau. Já Dumbo é o protagonista de uma história de superação de um “deficiente físico”. Às aspas referem-se ao fato que não há na verdade, deficiência. Dumbo é um espécime africano (orelhas grandes) entregue erroneamente pela cegonha a uma mãe asiática.
Aliás, eu sempre achei que os elefantes asiáticos eram os únicos domesticáveis, inclusive Tarzan, que viveu na África, usava os asiáticos como meio de transporte, mas depois de minha visita ao Zimbábue pude passear numa genuína elefanta (ou elefoa como queiram) africana domesticável e vi que são muito dóceis e eu diria até confortáveis. Também é bom lembrar que a sociedade elefantina é matriarcal, daí o fato que todos os artistas elefantes em Dumbo são fêmeas, incluindo as companheiras muy-amigas da mãe de Dumbo (as fêmeas tem mais iniciativas que os machos. Isto é demonstrado várias vezes no clássico longa- metragem).
Walt Disney é o pai de tudo isto. Ele soube aproveitar o novo cinema sonoro, e captou como ninguém a graça dos animais, tanto que transformou o asqueroso rato, no mais simpático ser do mundo animado (apesar de, numa pesquisa em 2003, o esperto Pernalonga ser apontado como o preferido dos americanos).
Pra quem não sabe, no início da carreira, Mickey Mouse era rabugento e debochado. Mas seu “pai” o evoluiu, aumentando-lhe o tamanho dos olhos e cabeça em relação ao corpo e assim, rejuvenescendo-o. Stephen J. Gould, um dos grandes divulgadores de ciência, descreveu a evolução do Mickey, em “O Polegar do Panda”. Ele menciona inclusive sua mudança mais importante, a do comportamento, que passou de indócil para “politicamente correta”, refletindo a crescente esperança de Disney num país com cidadãos asseados, “certinhos” e com um cão, o Pateta, como melhor amigo (note que Pluto e Pateta são da mesma espécie, mas com papéis bem distintos). Digo isto sem ofensas, pois achar como os anti-americanos, que Disney submeteu populações infanto-juvenis do mundo todo à lavagem cerebral é, pra dizer o mínimo, exagero.
Além de “Dumbo” e do altamente recomendável “Fantasia” que mostra os dinossauros pela primeira vez brilhantemente descritos numa animação, Disney provocou chororos no cinema com a morte da mamãe do herbívoro Bambi. Depois lágrimas rolaram com o “Rei Leão”, uma história de usurpação de poder tão conhecida na literatura adulta.
Atualmente numa parceria com a Walt Disney Pictures, o Estúdio de Animação Pixar tem produzido pérolas imperdíveis. Os mais conhecidos deles, Toy Story (nos 1 e 2), mostram valores como amizade e lealdade. Em Monstros S.A. vemos uma empresa e um mundo serem salvos por funcionários, digamos, monstruosos mas que descobrem que a energia do riso é mais poderosa que a do medo.
Mas há uma jóia rara ainda maior produzida nos Estúdios Pixar: é Bug’s Life ou “Vida de Inseto”. A história começa numa ilha fluvial na seca, época em que as formigas trabalham para acumular alimentos que servirão aos gafanhotos, exploradores da colônia local há vários anos. A engenhosa formiga Flik sempre disposta a ajudar acaba colocando o formigueiro em maus lençóis. Hopper (do inglês grasshopper – gafanhoto) chefe dos gafanhotos, diz que voltará com seus comparsas após a última folha cair (isto é, no final do outono) e quer uma quantia ainda maior de alimentos. Flik, é então enviada para buscar ajuda fora da ilha, à fim de afastar a terrível ameaça e deixar o trabalho do formigueiro em paz.
Na cidade, Flik contrata alguns artistas desempregados de circo, confundido-os com bravos guerreiros: um besouro, uma aranha, uma lagarta, um bicho-pau, uma joaninha, uma borboleta, um louva-a-deus e dois tatuzinhos de jardim. Estes chegam à ilha pensando que se apresentarão num espetáculo, e quando vêem que se meteram numa enrascada tentam escapar, mas são tragados pelos fatos e acabam junto com as formigas, construindo um “pássaro” com o qual conseguem espantar os malvados gafanhotos. Os artistas retornam a cidade e a ilha volta a ser local apenas das formigas, que passam a viver felizes para sempre, sem o jugo gafanhotês. Um enredo previsível como todo desenho que se preze.
Bem, dirá o leitor, mas como uma história cheia de clichês, pode ser tão interessante? A resposta está nas relações ecológicas que são os alicerces do enredo.
Uma das únicas leis genuínas na Ciência Ecológica é a relação espécie-área, que prevê que quanto maior a área, maior o número de espécies que nela podem coexistir. Assim, na pequena ilha do desenho só há uma espécie (as formigas), sem espaço aparente pra outra. Apesar de vilão, os gafanhotos competem com as formigas pelo mesmo recurso alimentar (sementes) e não são seus predadores, como a maioria dos vilões animais (nas histórias de gato, predador, e rato ou passarinho, é o pobre do felino que sempre sofre).
Outra excelente lição do desenho são os fortes sentimentos de saudades e culpa que Flik tem em relação ao formigueiro, decorrentes do fato das formigas formarem uma organização social, com alto cuidado cooperativo (dividida em castas) e superposição de gerações (no desenho há a presença de formigas mais velhas). Este comportamento é bem diferente dos “artistas” cujas espécies não vivem em castas e por isso todos eles representam tipos caracteristicamente narcisistas do meio artístico: um louva-a-deus extremamente formal que é mistura de místico e mágico, uma lagarta que não consegue controlar o próprio peso e passou da idade de tornar-se borboleta, uma joaninha macho, revoltada com o trato feminino com sua espécie, um bicho-pau que gostaria de um papel mais nobre do que “poste, escada ou espada”, etc…
Este artigo foi publicado originalmente no Jornal Opção (maio de 2003).






setembro 21st, 2008 at 12:13
Adorei esse tema! A animação é realmente ótima! =)