
Se você tem a sorte de ter que viajar de carro ao Rio de Janeiro quase que fatalmente terá o azar de ter de passar pela horrenda Avenida Brasil, com seu tráfego ruidoso e sua paisagem desoladora que mostra um Brasil que poderia ter sido mas não foi. Destoando deste cenário feio, nesta mesma avenida de nome irônico, aponta por entre altas árvores de Mata Atlântica (e outras nem tão nativas) a torre de um templo ou de um castelo das Arábias. Pra quem não sabe, trata-se do Instituto Oswaldo Cruz ou simplesmente Instituto Manguinhos, que para muitos é a inauguração ou ainda, o desembarque da ciência brasileira oriunda da Europa, mais precisamente do Instituto Pasteur na França.
É precisamente esta história, em quase todos os seus meandros e aspectos sociológicos, que Henrique Cukierman conta em seu Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.).

O livro é balizado pelas reflexões do francês Bruno Latour sobre ciência e também pelo, mais famoso que lido, Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Por ser fruto das dissertações de mestrado e doutorado do autor, sobra no livro aquele palavrório academicista, com direito à linguagem em tom irônico, por vezes, enfadonho, dos relatórios governamentais do início do século XX. Há também algumas informações repetidas (por exemplo, as tabelas das páginas 129 e 191) e em muitos momentos as longas notas de rodapé são bem mais interessantes que o texto propriamente dito. Em suma, houve por parte do autor e das editoras (duas editoras, nenhum índice remissivo…) um certo desleixo, “…palavra que indica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que não vale a pena…”, só para lembrar Sérgio B. de Holanda.
Mas ao que interessa: recém-chegado de um longo estágio na França, o Dr. Oswaldo Cruz foi chamado em 1899 para acudir mais uma moléstia que aportara em Santos. Era a peste bubônica como logo depois diagnosticara junto com Adolpho Lutz e Vital Brazil. Para combatê-la, se fazia necessário construir um local para produzir soro, vacina e diagnósticos mais precisos.

Na verdade, muito mais era requerido (como o saneamento) mas, quando no início de 1900 a peste pareceu desistir de dar seu abraço da morte surge “claramente os mecanismos de funcionamento da Velha Metrópole perante as situações de crise: assim que se esgota seu paroxismo, cessam os movimentos para enfrentá-la e desmoronam as estruturas que a própria crise engendrou” (p. 62). Isto é, quando pára de morrer gente, de lotar hospital ou ainda de ser manchete de jornal, não se precisa mais nem do hospital, nem da vacina, nem da profilaxia. O modo como as autoridades brasileiras trataram a dengue nos últimos quatro anos te lembra alguma coisa, leitor?
Mas o bacilo veio em socorro dos nossos heróis cientistas e novos casos da peste reapareceram no Rio de Janeiro. Em 23 de julho foi inaugurado, então, o Instituto Soroterápico Federal, um grande feito naquele país tropical em que “não se acreditava em micróbios”. O resto é história: a casa dos funcionários que tocavam os fornos para a incineração de lixo na longínqua Fazenda Manguinhos, passou a receber os equipamentos da Europa e o pessoal do Instituto que “nessas toscas e velhas construções, começou a fazer medicina experimental no Brasil” nas palavras de um dos pioneiros.

Foi neste local insalubre, cuja refeição era um “ensopado de galinha com batatas, arroz , pão e, para terminar, algumas bananas e café ralo” que Oswaldo Cruz exigia obediência cega aos preceitos das técnicas bacteriológicas. O argumento era baseado na história de Domingos Freire, que em 1885 teve seu trabalho original, sobre o agente etiológico da febre amarela, rejeitado pelos europeus e americanos, pois não seguia as rígidas regras científicas necessárias.
Oswaldo não queria cair nesta armadilha e ao mesmo tempo, não se contentava em ser um repetidor incondicional da ciência européia. Era preciso aproveitar o momento para, além de civilizar o Brasil, colocando-o no eixo da revolução científica da vacina, fundar uma ciência genuinamente brasileira. Mas aí viriam os entraves da burocracia e até mesmo a revolta da vacina, que ficam pra semana que vem.


fevereiro 20th, 2009 at 18:49
Bom post!. Afinal, esse “castelinho” é representativo não só para a história, no sentido de passado, mas continua hoje sendo símbolo de pesquisa (e divulgação científica) feita no Brasil. (obs. não trabalho lá, nem meus parentes..rs)
fevereiro 25th, 2009 at 14:37
Oi Ronaldo! Primeiro parabéns pelo Blog. Adoro lê-lo. Realmente nosso mestre Miguel Petrere já merecia tal homenagem pela sua história e qualidade de pesquisa, sua personalidade única e por todo o bem que fez em orientar a todos nós, é claro… Um abração e bom trabalho no Blog. Getulio