
Nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, dizia que o complexo de vira-latas é característica fundamental no brasileiro. Outro intelectual fundamental desta terra, Sérgio Buarque de Holanda, foi mais acadêmico no assunto: “(…) o Brasil (…) se envergonhava de si mesmo, de sua realidade biológica. Aqueles que pugnaram por uma vida nova (…) representavam a idéia que o país não pode crescer pelas suas próprias forças naturais: deve-se formar de fora para dentro, deve merecer aprovação dos outros.”
É assim que Henrique Cukierman começa os últimos capítulos de seu livro Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.), mostrando a trajetória de Oswaldo Cruz, que culminou vitoriosa na conquista do primeiro prêmio na XIV Exposição de Higiene e Demografia, realizada em Berlim em setembro e outubro de 1907 (vide artigo).

Medalha de ouro recebida por Oswaldo Cruz no 14º Congresso de Higiene e Demografia de Berlim, 1908
Realmente não foi fácil, mas o obstinado Oswaldo, que já havia passado pela Alemanha, contou ainda com o auxílio imprescindível de compatriotas como Rocha Lima, que estava estudando microbiologia com os organizadores da exposição lá mesmo em Berlim. As cartas trocadas entre o médico-estudante Rocha Lima e Oswaldo Cruz, foram fundamentais para Cukierman mostrar o quanto a batalha burocrática para enviar o material à Berlim, não foi nada fácil. Até votação no Senado Oswaldo Cruz teve que presenciar. Mas seu lema mostrava sua obsessão: “age direito e não temas ninguém”.
Enquanto isto, as primeiras desavenças ocorriam no Instituto, com os “big-egos” de médicos-pesquisadores acusando-se mutuamente de incompetentes e improdutivos. Mas a chegada da nova-era e do progresso foi inevitável. Bem, mais ou menos. Sabe, leitor, como foi aprovada a primeira patente vinda de Manguinhos? Alcides Godoy desde 1903 estudava, em Manguinhos, uma vacina contra a peste da manqueira (uma doença que provoca feridas no gado). Em 26 de outubro de 1908 deu entrada ao pedido de patente de sua descoberta (ou seria “invenção”?). O funcionário do serviço de patentes encaminhou a documentação e amostras ao exame de quem? Do próprio Instituto Manguinhos e como diria Cukierman: “O Godoy fez de conta, o Instituto fez que viu, e o estratagema resultou na aceitação da patente, com o número 5.566 em 24 de novembro de 1908”. Como as salsichas e as leis, talvez seja melhor desconhecer a história das patentes.

Em 1913, o Instituto começou suas expedições para descobrir o Brasil. A publicação dos relatos destas viagens, que falava das terríveis doenças do interior, e levou à famosa frase “O Brasil é um imenso hospital”, fez com que até Monteiro Lobato renunciasse, parcialmente, ao Urupês dizendo que o “Jeca não é assim, está assim”. Depois veio a propaganda do Biotônico Fontoura, mas foi bem depois…
Finalmente os cruzados cientificantes do Dr. Oswaldo se deparavam com um Brasil que quase nem falava a mesma língua, além de ter de ouvir todas as crendices e se deparar com a falta de sentimento nacional, pois a “única bandeira que conheciam era a do Divino”. O intelectual e/ou cientista brasileiro era (ainda é) mesmo um desterrado, com a eterna sensação de “não estar de todo” inserido no país, que insiste em não entender o que “deve ser feito”, isto é, aquilo que o cientista e/ou intelectual manda fazer: seguir o rumo infalível da Ciência!

Oswaldo Cruz é recebido como herói nacional no Rio de Janeiro, ao voltar de Berlim, em 1908
Num dos relatórios de viagem (assinado pela dupla de médicos Neiva e Penna), discretamente se pregava o aperfeiçoamento da raça brasileira (o sul era modelo), enquanto era explícito e cruel com o patrício interiorano: “(…) não era um povo, mas o estrume de um povo que ainda há de vir”. O povo é vira-lata? Nós somos a carrocinha e este país precisa de sabão e limpeza.
Anos depois, políticos e intelectuais humanistas brasileiros flertaram com a eugenia e o nazismo. Mas, claro, claro, os cientistas naturais não tiveram nada a ver com isto. É, Dr. Oswaldo: “age direito e não temas ninguém”, mas o que significa mesmo “agir direito”?


março 18th, 2009 at 23:48
Sergio Buarque e Nelson Rodrigues…lembrou bem. Mas quem foi que pediu pra prestar atenção em nossas músicas infantis? São deprimentes muitas delas! difícil fazer ciência na terra brasilis não é Ronaldo. To agora me lembrando de um cientista brasileiro muito importante para minha profissão, que também suou muito a camisa: Landel de Moura. Professor Ronaldo, bote um dia um pedacinho da história dele aqui na Bafana pra nós, bota? Inté….
maio 6th, 2009 at 13:55
Olá Ronaldo,
Primeiramente quero agradecer a (rara!) oportunidade do diálogo público a respeito do meu livro. Desde já, vai aqui o afeto que se encerra em meu peito já não tão juvenil. O livro é o resultado de sete anos de pesquisa intensa e dedicada, sem falar no enorme esforço posterior para publicá-lo (ou seja, também quero de cara protestar contra a “facilidade” com que você, face a justas críticas de editoração, atribuiu-me um “certo desleixo” na realização deste volumoso empreendimento), o que faz com que tamanha oportunidade seja para mim uma benção, uma certeza de que valeu a pena o esforço. Muito obrigado mesmo!
Também gostaria de parabenizá-lo pelo esforço de “trocar o livro em miúdos”, de buscar trazê-lo para um público maior, de resumi-lo e simplificá-lo para facilitar a divulgação de suas proposições. Neste sentido, não sei se sou a pessoa mais indicada para discutir o seu texto, pois, como autor, imaginei um leitor interessado na discussão acadêmica (não no sentido pejorativo, diga-se de passagem) e, portanto, por reduzir sua força e seu sentido, causa-me uma certa estranheza a simplificação das minhas proposições. Vou apontar aqui dois exemplos desse “estranhamento” (estou me referindo aos 3 posts do blog sobre o livro), reiterando que deve ser relevada a minha condição (des)privilegiada de autor:
1) não propus que “se fazia necessário construir um local para produzir soro, vacina e diagnósticos mais precisos”. Este sujeito indeterminado definitivamente não faz parte dos meus argumentos, pois foi exatamente o contrário que procurei mostrar, a saber, o esforço dos nossos cientistas em tornar necessária uma tal construção, em convencer as autoridades governamentais, coisa nada fácil, que seria urgente construir um local assim. Ou, conforme procurei ressaltar à luz das proposições de Bruno Latour, as traduções mobilizadas para uma tal construção (lembre-se que, para dar conta da complexidade do que seja o esforço de tradução, indiquei, entre outros, a ausência de evidências quanto à impossibilidade alegada por nossos cientistas de se importar o soro da Europa, a qual, no entanto, foi um argumento chave para convencer as autoridades) e as dificuldades de empreendê-la (ou seja, de tornar uma determinada tradução hegemônica e estável), pois bastou que a peste amainasse para que provisoriamente se abandonassem os planos de construir localmente um instituto soroterápico, só retomados posteriormente graças a uma “ajudinha” do micróbio da peste (como aliás você lembra muito bem), ou em termos dos “academicismos” que utilizo, graças a um aliança com um não humano. Parece um detalhe, mas para mim é fundamental explicitar que a ciência não é neutra. A indeterminação do sujeito que você utilizou é a forma mais subreptícia de reintroduzir essa neutralidade, ou seja, como se a necessidade de construir um instituto soroterápico viesse de “lugar nenhum”, como se prescindisse de qualquer tradução, como se estivesse fora do tempo e do espaço.
2) Também não propus que “sua desenvoltura [de Oswaldo Cruz] nos meandros enfadonhos e pouco éticos da administração ‘lá-fora´ permitiu o trabalho de outros (e dele mesmo) nas bancadas do laboratório, pois ele era o grande representante do pessoal do ‘aqui-dentro’”. Eu não aposto um centavo sequer nessa separação em nenhum momento do livro, ou seja, a divisão entre um ‘lado de dentro’ e um ‘lado de fora’ do laboratório é evidenciada por mim como uma proposta dos próprios cientistas para separar a ciência da sociedade de forma a reafirmar a pretensa neutralidade da ciência. Cito em meu auxílio trecho das pp. 104-105 do livro: “(…) linhas divisórias nem são fixas nem intransponíveis, e muito menos pertencem à ‘ordem das coisas’. Em verdade, vão sendo construídas e administradas para levar a rede o mais longe possível de modo que, sendo permanentemente redesenhadas, constituem o movimento que, em última instância, constrói a Natureza, a Sociedade e a separação entre ambas. O que significa, mais exatamente, este aparente ir e vir ao longo de limites, ora transpassados, ora respeitados? Além de esclarecer este suposto ziguezague, a formulação latouriana para Pasteur – “Por um lado, jogava sua rede tão longe quanto pudesse; por outro lado, negava que tivesse aliados e simulava (…) que tudo aquilo que fazia procedia da ‘Ciência’”[Latour, A Pasteurização da França, p. 71] – vale perfeitamente para Oswaldo que, como se fora uma encenação, representava a solidão daqueles seres entregues aos sacrifícios de uma causa nobre, a causa da ciência, ao mesmo tempo que se cercava de mais e mais aliados.
Enfim, poderia apontar mais alguns exemplos, mas resultaria um post muito longo e enfadonho. Prefiro parar por aqui (quem sabe já não é o suficiente para novos debates?), não sem antes fazer um pequeno e justo reparo: a FAPERJ não teve nenhuma participação na edição propriamente dita do livro, pois de fato não é uma editora mas sim o fundo de amparo à pesquisa do Rio de Janeiro, cujo valioso apoio, através de seu programa de editoração, foi o que tornou possível a publicação do meu livro.
Mais uma vez, meu muito obrigado!