A Ciência com lupas (I de II)

Valendo-se de modelos matemáticos, o manejo pesqueiro transforma o cientista num verdadeiro “detetive-ecológico”, ainda que nem, sempre bem-sucedido.

O pescador

A indústria pesqueira gera mais de 200 bilhões de dólares por ano e este montante não tem custo de produção, uma vez que o0 pescado aproveita serviços ambientais gratuitos como luz solar, crescimento de algas, reciclagem de nutrientes, ambientes de reprodução, entre outros.

Entretanto, não se pode pegar todo o peixe de uma só vez, pois é necessário que parte dele fique na água e se reproduza (ou se renove, daí a expressão recurso renovável) garantindo a pesca futura. Para saber o quanto se pode capturar um determinado estoque, sem afetar a sua renovação, é preciso adotar técnicas de ciência do “manejo pesqueiro”.

O manejo formal dos peixes começa com a chamada avaliação de estoque, isto é, tentar descobrir qual o tamanho da população de peixes e fazer previsões de seu crescimento, inclusive em cenários de incremento chamado esforce pesqueiro (número de barcos, de pescadores ou ainda de dias de pesca ou tamanho da área de redes, etc.). Esta fase envolve o uso de modelos matemáticos e estatísticos. É consenso entre os “cientistas- pesqueiros” que, sem uma análise quantitativa do estoque, não é possível adotar alternativas adequadas para o manejo da pesca.

O grande problema para uma avaliação do estoque pesqueiro é que não se pode ver e contar os peixes sob a água. Por exemplo, se você vai manejar a retirada de madeira (outro recurso renovável) de uma floresta, talvez com um sobrevôo seja possível estimar a população da espécie de árvore a ser explorada. Quando o IBGE faz o censo, o recenseador vai até sua casa e vê o número de cômodos, eletrodomésticos, etc.; então o governo passa a ter um ótimo instrumento para saber como manejar e planejar seus recursos (ao menos teoricamente).

A lupa e o Peixe

Infelizmente o nosso amigo peixe só é visto quando capturado. Então é preciso pegar amostras da população e fazer inferências sobre o estado dela: se está crescendo ou diminuindo, se está desovando ou não, se está se alimentando etc. É a partir das amostras (que são pedaços de informação) que o cientista consegue contar a história da população toda. Por isso que a profissão do cientista se parece muito com a do detetive, que com algumas informações, às vezes incongruentes desvenda o mistério. (Livro detetive ecológico.)

Mas o manejo pesqueiro é mais do a “simples” matemática da da avaliação de estoque e suas estimativas do potencial natural da população de peixes. A pesca é uma atividade humana e se um modelo matemático (criação também do homem) nos diz que o estoque está “sobre-e xplor ado”, isto é, está sendo explorado além da sua capacidade de renovação , isto quer dizer que a pesca deva ser totalmente proibida. Aliás, esta é a pior atitude a se tomar no manejo da pesca, pois é impraticável politicamente (a não ser em ditaduras) e inaceitável socialmente, já que desemprega ou conduz à marginalidade uma população pouco qualificada e que depende da pesca para sua sobrevivência (no mundo, há pelo menos 27 milhões de pessoas que trabalham diretamente no setor).

Holmes

O sonho de todo “cientista-pesqueiro” é encontrar o ponto de rendimento ótimo (ou máximo) sustentável pela pesca, ou seja, uma quantia de trabalho que dê ao pescador (ou indústria pesqueira) o máximo de rendimento por seu esforço, ao mesmo tempo que garanta a possibilidade de renovação para o próximo ano. Infelizmente é praticamente impossível determinar o rendimento ótimo, sem sobre-explorar o estoque. Quando isso ocorre, são necessárias medidas para controlar o acesso aos recursos.

Veja também: A Ciência com lupas (II de II)

Continua…

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