
Ronald A. Fisher era um arrogante, sem paciência com ninguém que fosse, ou parecesse, menos inteligente que ele, isto é, quase o mundo todo. Era extremamente original e ainda, um pesquisador muito produtivo, que nos últimos 50 anos de sua vida conseguiu publicar praticamente um trabalho (importante) a cada 2 meses. Isto numa época sem computadores (ele morreu em 1962), com suas correções automáticas e cálculos precisos. Ele fez os dele em calculadoras primitivas e praticamente sozinho.
Já tratamos semana passada de sua colaboração significativa com a Estatística, mas ele não ficou só aí.

Em 1900, 35 anos depois de publicado (literalmente) numa “revista de paróquia”, o trabalho das ervilhas de Mendel foi redescoberto. Desta forma, enormes dúvidas surgiram sobre o darwinismo que aparentemente era contraditório à elegante pesquisa mendeliana, pois esta resultava numa evolução por saltos e não gradual, como afirmava Darwin: “a natureza não dá saltos” com ajuda e o apoio dos biométricos, liderados por Karl Pearson, que por defender tanto o gradualismo, viviam medindo tudo e todos, buscando variações entre as populações.
Em 1915, T. H. Morgan estudou a Drosophilla (a mosca-das-frutas) e publicou um trabalho desenvolvendo grandemente a teoria mendeliana mas do qual ainda restaram muitas dúvidas de como atuavam os genes nos cromossomos, que seriam os principais mecanismos de herança, poderiam ser escolhidos pela seleção natural.

Este enigma, ficou para nosso herói, Lord Fisher, que em 1918, publicou o artigo “A correlação entre parentes na suposição da herança mendeliana” que com, modelos elegantes, mostrou que a herança mesclada é o efeito cumulativo de um grande número de fatores mendelianos que são individualmente insignificantes. O mais incrível é que nesta data, Fisher, com 28 anos, praticamente nem tinha emprego, pois só no ano seguinte (em 1919) é que ele se estabilizaria na Estação Experimental de Rothamsted, para então, praticamente criar a Estatística.
Depois em 1936, publicaria um trabalho no qual afirmava que os resultados de Mendel eram “bom demais pra ser verdade”, mas que mesmo assim, Mendel tinha demonstrado grandes talentos como pesquisador experimental (olha o Fisher, fazendo elogios, gente…).

Fisher ainda escreveu outros trabalhos, importantes para a chamada “síntese evolutiva moderna”, como aquele em que mostrou o teorema fundamental da seleção natural: “a velocidade de aumento na aptidão de qualquer organismo em qualquer tempo é igual à sua variância genética em aptidão naquele momento”. Isto é, quanto maior a variabilidade genética, maior a probabilidade do organismo (ou espécie) ajustar-se ao seu ambiente no tempo presente.
Hoje, quando comemoramos 200 anos do nascimento de Darwin, parece ser coloquial, entre cientistas, aceitar a seleção natural, mas isto nem sempre foi assim, pois antes da síntese evolutiva, isto é, antes do conjunto de modelos matemáticos elaborados por Fisher e outros, muita desconfiança havia sobre darwinismo, já que o mendelismo mostrava outras perspectivas.

Então pra concluir: o cara era um chato, mas “inventou” a estatística, que perpassa por todas as áreas do saber, e agregou a genética mendeliana com a evolução e a seleção natural. Mas não é que qualquer pesquisador que eu conheça, gostaria de ter um chato deste no próprio departamento?


maio 9th, 2009 at 21:37
Muito boa essa sequencia de posts. Adoro ler sobre historia da ciência. Parabéns.
maio 11th, 2009 at 21:25
Adorei essa série sobre a HIstória da estatística.
Adoro esse assunto e já divulguei a meus monitorandos para eles lerem e aprenderem a gostar desse assunto!!!
Parabéns!!