As intermitências da morte, segundo Jared Diamond (II de III)

A vida e morte pascoalina descrita acima é baseada no segundo capítulo do livro de Jared Diamond Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso (2005, Record, 683 páginas). O autor é o mesmo de Armas, Germes e Aço: os Destinos das Sociedades Humanas, que mostra o desenvolvimento de diferentes sociedades nos últimos 13 mil anos e que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de 1998, colocando, de quebra, seu nome como o 9º intelectual mais importante (pra ser mais preciso “famoso”) na recente lista da revista Prospect e do portal Foreign Policy.

Diamond é professor da Universidade da Califórnia (Los Angeles), doutor em ornitologia tendo trabalhado por anos com os maravilhosos pássaros da Nova Guiné que tanto encantaram no século XIX o naturalista Alfred R. Wallace, o co-autor da teoria da seleção natural. Diamond foi também diretor, durante 12 anos, da WWF (World Wildlife Fund) nos EUA, uma das mais poderosas ONGs ambientalistas do mundo. Pra encurtar, o homem tem background.

Basicamente em Colapso, ele relata o declínio, drástico ou não, que levaram algumas sociedades ao aniquilamento total, ou a tomarem medidas sensatas para evitá-lo. Ele não é propriamente um determinista ecológico como dizemos das pessoas que afirmam que “natureza é destino” dando a entender que a queda das sociedades só dependa da degradação imposta ao ambiente, mas mostra que a escolha que elas fazem perante as intempéries naturais é fundamental (em tempo, ele também não é metido a cronista como este escrevinhador…).

Diamond escreve com cientificismo. Por exemplo, na discussão do colapso da ilha de Páscoa, ele faz comparações com outras ilhas da Polinésia e se pergunta por que algumas prosperam até hoje. A resposta é multivariada, isto é, não há apenas um motivo. Assim, a qualidade excepcional do tufo vulcânico de Páscoa para o “artesanato”, junto com excedentes alimentares em certas épocas, aliados ao isolamento da ilha que não permitia o comércio com outras e deixava muita gente sem, literalmente, ter o que fazer, resultou num profundo mergulho no hobby místico de “entalhar e carregar pedra” (a natureza humana é mesmo muito estranha, daí a louvável tentativa de Diamond de decifrá-la). Mas a produção dos excedentes alimentares não era sustentável (a estimativa é que o esforço gasto na construção dos moais consumiu 25 por cento dos recursos energéticos da ilha) e 800 anos depois houve a ruína.

Mas há ainda outras variáveis complicadoras para Páscoa: ela é mais seca e fria que as outras ilhas (o que reduz a taxa de rebrotamento e crescimento de plantas), além disso, algumas ilhas do Pacífico recebem um aporte de nutrientes através do vento, oriundos de vulcões, centenas e até milhares de quilômetros de distância. Infelizmente Páscoa não recebe esta bênção de poeira fértil para o seu solo. Também, por ser pequena e isolada, possui um número menor de espécies animais e vegetais. E Diamond conclui: “[os pascolenses] tiveram o azar de viver em um ambiente muito frágil e com o maior risco de desmatamento do que o de qualquer outro povo do Pacífico”. Junte-se a isto, a corrida-febril da construção dos moais.

Dos povos antigos ele ainda disserta sobre os anasazis, que viveram entre 600 e 1200 d.C. no sudoeste dos Estados Unidos (região do Novo México), e construíram verdadeiros prédios de cinco andares que alojavam 3 mil pessoas, com pedras sobrepostas (como alguns muros na cidade de Pirenópolis em Goiás) e vigas enormes de madeiras. Os paleontólogos, através da leitura de anéis destas vigas e estudo de outros fósseis, constataram que o local que hoje é árido e deserto outrora era úmido, florestado e com caça abundante. As evidências mostram que as mudanças ambientais provocadas, em parte por este povo, causaram o esgotamento dos recursos e quando os espanhóis chegaram apenas viram as ruínas e ouviram os relatos dos índios americanos que chamavam os desaparecidos moradores do local de anasazi ou “os antigos”.

Outra lendária civilização que sucumbiu foi a maia. Diamond aponta como causa da queda, o desmatamento e conseqüente erosão aliados às mudanças climáticas globais, não necessariamente provocadas pelo homem, e a hostilidade entre os diferentes povos maias enfatizada pela disputa de seus reis e nobres. Os espanhóis? Chegaram quando a luz estava apagando e não tiveram toda a culpa do colapso, ao contrário dos que reclamam das “veias abertas da América Latina” já em priscas eras.

As más notícias antigas continuam pela pena de Diamond quando ele discorre sobre a colonização por vikings e nórdicos da Groenlândia e Islândia, esta última só suportou uma pequena população entre 870 e 930 d.C. e depois em 1262, quando voltou a ser povoada, os islandeses, percebendo a fragilidade do ecossistema local, criaram uma máxima famosa até hoje na ilha: “Nós não podemos desfrutar do luxo da experiência com nossa terra”.

Mas existem também boas notícias, isto é, experiências de povos antigos que deram certo: os 7.000 anos ininterruptos de agricultura nas terras altas da Nova Guiné (dura até hoje), o Japão que superou os problemas de falta de madeira com uma silvicultura intensa comandada pelo xogunato (século XVI) que, invocando os princípios de Confúcio, limitava o consumo e acumulava reservas, aproveitando-se ainda de vantagens ambientais de sua ilha (crescimento rápido das árvores, solos férteis, entre outras).

Diamond se esforça para avaliar todas estas histórias, analisando cinco possíveis fatores que contribuem para o colapso de um povo ou nação: dano ambiental, mudança climática, vizinhanças hostis, parceiros comerciais amistosos e as respostas da sociedade aos problemas ambientais. E, então, este exercício intelectual transforma-se na maior contribuição do livro de Diamond, isto é, na tentativa de relacionar a ecologia, a economia e a política no entendimento do desenvolvimento destes povos, para que, com os erros e acertos deles, tomemos nossas próprias decisões.

Cá entre nós, nem sempre ele consegue fazer as conexões. Quando é convincente torna-se muito prolixo. Se com Armas, Germes e Aço ele ganhou o Pulitzer, com o novo livro merece o “Prolixer”. Ele vence pelo cansaço. Mas prometo que no próximo artigo, quando abordarei a análise das sociedades modernas de Colapso, e suas conjecturas sobre o futuro, falarei mais sobre isto.

Há uma bela frase do príncipe Jeta, personagem do livro Criação de Gore Vidal: “Por que os reinos deveriam ser diferentes dos seres humanos? Eles nascem. Eles crescem. Eles morrem”. Seria o conhecimento da história destes reinos um modo de nos ajudar a viver mais e melhor? Talvez, mas outra máxima me persegue há anos: “…a luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás” (Samuel T. Coleridge).

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2 Respostas

  1. Marcelo "ex" alopras Schlindwein Says:

    Saudações esverveadas (apesar de cinzas para um botafoguense),

    O texto do Jared em Colapso tem momentos provocativos e interessantes (para mim uns barr abaixo do “Germes… e mesmo do
    “Porque o sexo e divertido”. Provocativamente acho que o livro perde um pouco do fôlego no fim. Talvez um pouco de concessão demais ao leitor estadunidense médio ao usar o exemplo da oil company…
    Mas, como sua comparação com do Real Madri e o Barro Preto, nas observações do carnaval do Rio: uma bola no bambuzal… no meio de uma goleada!

    Marcelo

  2. Sidinei M. Thomaz Says:

    Parabéns por mais essa resenha! O Bafana está cada vez melhor e sempre o recomendo aos meus alunos.
    Quanto ao livro do Diamond, realmente vale a pena ler, principalmente pelas excelentes bases teóricas, enraizadas na ciência e não em “achismos”. A despeito disso, concordo que talvez o livro mereça o prêmio “Prolixer”! Só mais uma curiosidade: interessante a forma pela qual algumas sociedades conseguiram sobreviver com meios nada ortodoxos, como por exemplo, empregando abortos, infanticídio e até mesmo suicídios quando a população estava muito grande. Analogias a parte, esse tema é muito atual diante da explosão populacional de alguns países.

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