Duzentos anos noites atrás

Capa Veja: Darwin 150 anos

Noites atrás fez 200 anos que um Charles Darwin nasceu. Digo “um”, pois outro promissor Charles Darwin nascera anos antes e teria sido tio do homem que desvendou a evolução, se não morresse ainda jovem, contaminado por ele mesmo numa aula de anatomia. Aparentemente o pai do famoso Darwin prestou uma homenagem ao irmão falecido ao batizar o filho. Também tinha esperanças de que seu filho fosse talentoso como o tio. Foi além…

A Veja, a terceira revista semanal do mundo em número de exemplares vendidos, colocou Darwin na capa e destacou a publicação de Origens das espécies: Uma guerra de 150 anos: porque Darwin não conseguiu expulsar Adão e Eva dos livros escolares” (Confira o artigo aqui). Poxa, Veja! O aniversário do Origens…  é só no final do ano.

Imagem de um quadro

E tenho que admitir que a reportagem não passa por um exame mais minucioso, isto é, o texto de Gabriela Carelli, poderia ter sido melhor. Há problemas nos quadros, por exemplo, o darwininismo explica porque “roncamos” (!), “os músculos [da garganta] relaxam e dificultam a entrada de ar”. Verdade? Eu pensei que roncávamos, pois nossos ancestrais que não roncavam nas cavernas não assustaram os predadores e acabaram sendo comidos por eles… Outro quadro diz ainda que na perspectiva evolucionista vamos às compras para nos mostrarmos poderosos, o que é uma herança ancestral. Então a culpa não é do capitalismo? Alguém poderia avisar os malucos do Global Warming?

Ainda no quadro da trajetória da vida (confira aqui), há a data de 1,7 milhão e “surge o homem moderno” e no quadro abaixo o Homo sapiens aparece entre 50 e 100 mil anos. Então, em 1,7 milhão surge o “ancestral” do homem e não o homem moderno.

O texto ainda falha ao dizer que Darwin entendeu os tentilhões na Galápagos, mas na verdade ele entendeu mesmo os tordos, os tentilhões ele coletou mal. Ele era jovem, ele não tinha lido… Charles Darwin.

Imagem quadro tentilhoes

Há ainda destaque excessivo para as mutações, na linha: você é diferente do seu pai? Foi a mutação. Na verdade eu sou diferente do meu pai por causa, por exemplo, do crossing-over que ocorre nas células reprodutivas que se dividem e ou ainda da combinação do material genético de minha mãe com o do meu pai. As mutações, a imensa maioria deletéria, foram para a lata do lixo da história biológica. No quadro da página 74, há uma frase que diz que mutações criam novas espécies. Isto é o que Gould uma vez chamou de “monstro promissor”, o que pode ser verdade para alguns casos como o milho, mas definitivamente não é a regra para a imensa maioria das espécies que vai apenas gradualmente acumulando diferenças.

Em todo o caso o enfoque sobre religião X ciência me pareceu educado e correto. É chato ver uma boa revista cometer estes pequenos equívocos. Mas isto mostra como ainda é difícil falar de ciência, ou, ainda, agradar este blog.

Referenciado por:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Netvouz
  • DZone
  • ThisNext
  • De.lirio.us
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Internetmedia
  • YahooMyWeb

4 Respostas

  1. Benedito Domingues do Amaral Says:

    Ô Ronaldo veja o artigo do Delfim sobre o fracasso acadêmico dos economista com a crise. Imagine o que vai ser quando o castelo de barro do IPCC cair por terra com a tal mudanças climáticas, ou seja, se não ocorrer nada nos próximos 10 anos ou se o planeta começar a esfriar, similar ao invernico da década de 70 ou ocorrido na idade média. O que será do José (s) ambientalista (s) de plantão?

    Do Valor Econômico
    O fracasso da economia acadêmica
    Antonio Delfim Netto

    10/03/2009

    Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de “Perspicillum”. Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu? A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista “Ciência Hoje”, jan./fev. 2009: 18): “Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias – sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada – ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais”.

    Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da “verdadeira” ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu “tipo” de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu. Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas…

    (…) Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do “mainstream” e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, “A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica” 1. É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração.

    A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte:

    “A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se. Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia. Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que – por construção – ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais. A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dos perigos que caracterizam os modelos de sua preferência. Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos”.

    O final do trabalho é ainda mais preocupante:

    “Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade. Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta. Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual. Ela falhou na sua relação com a sociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise. Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas”.

    Trata-se de um trágico “requiescat in pace”, não para a teoria econômica, mas para o “mainstream” pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade. Podemos voltar agora à modesta e útil economia política?

    1 Os autores são David Colander, Katarina Inlesuis, Alan Kirman e outros

  2. Ronaldo Angelini Says:

    Grande Benê, obrigado pela dica do artigo. Acho que também temos que pensar se não estamos fazendo o mesmo com a boa e velha ecologia do dia-a-dia, quantificando e, então, confundindo ovelhas com cães, como diria aquela boa e velha piada. Os do global warming fazem isto? Bem, agora com a recessão talvez menos gás carbônico seja jogado no ar….

  3. Emmerson Kran Says:

    A imprensa é formidável quando quer vender o seu peixe, independente do conteúdo. Há quem acredite, inclusive, que o conteúdo possa até não ser o peixe, mas acaba comprando.

  4. Eduardo Paes Says:

    Ronaldo, confesso que nunca fui muito fã da Veja (melhor dizendo acho a VEja insuportável!!!). A Pesquisa FAPESP desde mês (veja o link:
    http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3815&bd=1&pg=1&lg=
    Tem um texto primoroso do Mario de Pina além de outros também muito interessantes.
    Grande abraço

Deixe um Comentário

Observe: Comentário com moderação, é necessário ativá-lo e pode demorar um pouco. Não há necessidade de reenviar o seu comentário.