ENTREVISTA COM MIGUEL ANGEL RODRÍGUEZ
por Dilermando Pereira Lima Júnior
O que a Espanha tem? Além das touradas e do clássico “Barça e Real” a terra de Cervantes também produz Ecologia de primeira linha. O professor Miguel Angel Rodríguez Fernández do Departamento de Ecologia da Universidade de Alcala esteve recentemente no Brasil realizando uma série de trabalhos no Laboratório de Ecologia Teórica e Síntese – LETS da Universidade Federal de Goiás, onde gentilmente concedeu esta entrevista ao doutorando do NUPELIA (UEM- Maringá) Dilermando Pereira Lima Júnior.
Fale um pouco sobre sua formação e seu histórico como ecólogo.
Sou graduado em Biologia pela Universidade Autônoma de Madrid, a maior universidade da Espanha em número de alunos. Meu primeiro trabalho científico foi um estudo sobre comportamento de gado em liberdade numa paisagem similar ao cerrado brasileiro. Minha tese de doutorado foi relacionada à comunidade vegetais, em particular, com a estrutura subterrânea das raízes em comunidades de campos com diferentes graus de impacto devido à pastagem. Depois estudei muitos aspectos da Ecologia de Comunidades e da Ecologia de Populações de diversos grupos de organismos como vertebrados, plantas e insetos. Nos últimos cinco anos tenho me interessado por biogeografia e macroecologia.
Quando começou a se interessar por Macroecologia?
Meu interesse por Macroecologia surgiu durante a tese de doutorado. Sempre me chamou a atenção a existência de muitos dados acumulados sobre o assunto e como trabalhava com vegetação, me interessava os dados fitossociológicos levantados pelos botânicos.
Você acredita realmente nos padrões Macroecológicos como importantes fatores atuantes na estruturação de comunidades locais? Uma vez que muitos artigos mostram uma baixa correlação entre a diversidade de variáveis de grandes escalas espaciais.
Sim, eu acredito nos padrões.
Quando observamos os mapas de riqueza em escalas continentais, creio que esses mapas refletem realidades biológicas. É certo que os mesmos são criticados por mostrarem uma distribuição de espécies que representam mais hipóteses de distribuição do que a distribuição real das espécies, porém estudos mostram que esses mapas são boas explicações da distribuição.
Quando observamos os mapas de tamanho corporal das espécies e outros padrões macroecológicos, a mim parecem que esses mapas refletem realidades biológicas. Outra coisa são as análises que fazemos dos dados, que nos mostram correlações entre variáveis climáticas e históricas e nossas interpretações. Se as nossas interpretações são corretas ou não, isso está para ser visto.
Sabemos que nosso planeta hoje se encontra numa crise ambiental, com enormes prejuízos à diversidade biológica. Em se tratando de conservação você acha que a Macroecologia pode contribuir com a Biologia da Conservação ou são áreas distintas de pesquisa?
Sim. Por um lado o estudo da biogeografia nos ajuda a identificar pontos no globo com grande riqueza de espécies (os hotspots de biodiversidade), com grande número de espécies endêmicas e/ou espécies raras. Claro que tudo isso é uma informação útil para a biologia da conservação. Por outro lado, a macroecologia pode evidenciar como e quais os mecanismos que estão afetando a distribuição das espécies em grandes escalas, por exemplo, avaliando o impacto humano nestas escalas.
Nos últimos duzentos anos temos modificado o planeta como nunca antes na história. Isto sem dúvida tem afetado os padrões biogeográficos, portanto, estudos que estão focados em estabelecer até que ponto o impacto humano influencia os gradientes de riqueza de espécies podem ser muito importantes para medidas de conservação.
Quais são os motivos que lhe trazem ao Brasil?
O principal motivo é por aqui há um grupo de pesquisadores como José Alexandre Diniz-Filho, Luis Maurício Bini e Paulo De Marco Junior excepcionalmente bom no campo da Macroecologia, com uma capacidade de análise que chama atenção e é reconhecido por pesquisadores da área em todo o mundo. Vir ao Brasil, para mim é uma oportunidade para aprender e fazer análises mais refinadas. E não digo isso por estar no Brasil…
Quais são as principais semelhanças e diferenças entre as universidades espanholas e brasileiras?
É uma pergunta interessante. A principal semelhança entre as universidades dos dois países, que tanto professores brasileiros e espanhóis lamentam, é excesso de carga horária dedicada a aulas. Temos que ministrar cerca de 250 horas de aulas por ano aqui e na Espanha. Essa carga horária por ano não parece muito, mas quando comparamos isso a professores universitários dos Estados Unidos, que ministram cerca 40 e no máximo 60 horas de aulas por ano percebemos que estes professores têm muito mais tempo para concentrar-se em suas pesquisas e dedicar-se à orientação de seus alunos.
Creio eu que solução para esse problema é permitir que professores com grande interesse por pesquisa se dediquem mais tempo a esse trabalho, sem necessariamente deixar de ensinar. Sou professor e gosto muito de ensinar.
Como é vista a ciência brasileira na exterior, principalmente a Ecologia? E qual é principal contribuição do Brasil a ciência?
Não posso citar uma única contribuição, uma vez que possui uma comunidade científica muito grande, estou falando de Ecólogos. Nomes com José Alexandre Diniz-Filho (UFG) e Thomas Michael Lewinsohn (professor da UNICAMP) são muito conhecidos internacionalmente. Creio que os Ecólogos do Brasil tem uma participação muito importante no desenvolvimento da Ecologia. Aliás, me chama atenção a capacidade de análise que têm muitos ecólogos brasileiros.
Qual a contribuição que o Brasil poderia dar à ecologia?
A contribuição brasileira a Ecologia é enorme. A natureza brasileira é muito especial em escala mundial, a quantidade de biomas, a imensa biodiversidade, não há em outros locais no planeta… Creio que a Espanha não está tão mal em termos de contribuição, mas os países mais ao norte estão trabalhando com parte muito pequena da biodiversidade, poucas espécies condicionadas por um ambiente físico muito restritivo.
Vamos discutir um pouco o método científico. Quando observamos a estruturação do pensamento científico atual há um compromisso com a separação entre imaginação e ciência. Mas, pensamos em grandes cientistas como Dimitri Mendeleiev que vislumbrou o formato da tabela periódica num sonho, ou Albert Einstein, que reza a lenda, pensou na teoria da relatividade tentando responder a pergunta “o que aconteceria comigo se me movesse na velocidade da luz”; ambas questões de caráter muito mais imaginativo. Até que ponto existe a separação entre imaginação e racionalidade na construção do pensamento científico?
Não existe separação. Creio que são dois componentes essenciais dentro do método científico que chamamos de popperiano ou também hipotético dedutivo, não estou falando de indutivismo que é outra coisa.
O pensamento científico se divide em duas etapas: uma primeira puramente imaginativa, daí o nome hipotético, tem que haver hipóteses, pensar em explicações, a imaginação é livre, pode ter a idéia num sonho, observando o mapa de riqueza de espécies; já a segunda etapa é deduzir predições sobre essas hipóteses que imaginamos e como elas podem ser testadas por meio de um método racional.
Imaginação ligada a testes de hipóteses, as duas coisas são juntas não podem ser separadas. O método científico contempla a criatividade e rigor racional na hora de testar as nossas idéias.
Qual é a sua dica para jovens ecólogos e pós-graduandos que estão se formando agora e ainda têm poucos artigos publicados?
Diria duas coisas…
Primeiro publique tudo que podem. Nessa primeira fase de formação de mestrado e doutorado o pesquisador tem que estar ciente que está aprendendo. É importante fazer bons trabalhos, acabá-los e continuar trabalhando. Se você está investigando perguntas importantes, ótimo, mas o mais importante nessa fase é aprender. Dessa forma, fazer trabalhos mais clássicos (ou “conservadores”) e publicá-los é importante.
Com avançar da carreira creio que tem que haver uma tendência em prezar a qualidade. É normal que no inicio da carreira o estudante publique muito, mas com maturidade diminua o número de publicações e invista em artigos melhores, mais bem acabados e de maior calibre científico. Com o tempo não importa tanto o número de artigos, mas as questões que se investiga.
Resumindo: durante o mestrado e doutorado tente publicar muito em boas revistas internacionais e mais adiante se livrar da obsessão de número artigos e se concentre em idéias importantes para publicar em revistas de ponta.




março 13th, 2008 at 8:21
Oi gente, Ronaldo falando. Eu e o Alexandre Diniz, concordamos que quando o Miguel Rodríguez diz “Não sei o porquê de aqui no Brasil haver uma concentração muito grande de Ecólogos que gostam de trabalhar com matemática e estatísticas. Provavelmente, algo no sistema educacional brasileiro enfatiza as matemáticas e estatísticas…..” ele realmente não sabe, mas este “algo” é o Prof. Miguel Petrere Jr. da UNESP-Rio Claro, que é o professor que fez (e faz) a diferença para todos nós.