Ciência Brasileira: até quando ó senhor, até quando!!!!

Oi gente!

Segue abaixo um dos e-mails mais desanimadores que este blog já recebeu. O Fernando M. Pelicice que acabou de passar num concurso da UFT foi mandado embora, pois segundo a análise do juiz, ele é amigo íntimo de um dos membros da banca, já que tem trabalho em co-autoria com este professor (e mais quatro autores). Esperamos que o advogado do Fernando possa reverter o processo.

Ficamos na torcida pelo Fernando.

E-mail do Fernando:

Como “dono” de blog muito ativo, talvez fosse interessante escutar minha história. Óbvio que ela interessa muito a mim, mas o que aconteceu deve abrir um precedente terrível que ameaça a continuidade dos concursos públicos do país, e ainda coloca em xeque a lisura da comunidade científica. O que vou dizer é muito obvio para nós, mas vou pormenorizar.

Acho que não estão sabendo do meu drama aqui em Porto Nacional, não? Bem, no final de 2007 prestei para professor adjunto na UFT, por sugestão do Ângelo, que via uma boa união entre as muitas oportunidades de pesquisa na região e minha intensa atividade cientifica nos últimos anos. Muito bem, estudei e me empenhei. Passei em 1º lugar, tomei posse e comecei a trabalhar (maio/2008).

Foi então que o segundo colocado entrou com processo civil pedindo a anulação do concurso, alegando que eu tinha estreita relação profissional com uma pessoa da banca examinadora, no caso, o Carlos Sergio Agostinho (irmão do Ângelo). A lei prescreve que não é permitido que exista contato íntimo, profissional ou de amizade entre as pessoas. O juiz então, liminarmente, deferiu o pedido; fui suspenso, o processo ainda segue, e corro risco real de exoneração. No momento estou correndo com meu advogado, por meus direitos legítimos e descentemente conquistados.

O que tenho com C.S. Agostinho é 1 artigo cientifico e 1 resumo em co-autoria, mas, no caso, o convite, contato e colaboração nas obras ocorreu estritamente com o Ângelo, como sempre. NUNCA mantive qualquer contato com C.S. Agostinho, nem com qualquer outro irmão do Ângelo. Destaco que, entre as minhas 37 obras até o momento (de artigo a resumo em evento), compartilho autoria com mais 47 pesquisadores (de 9 estados brasileiros), o que resulta num total de 104 nomes em co-autoria. Ou seja, basta-se ter uma atividade de pesquisa intensa que, naturalmente, o rol de colaboradores se amplia geometricamente. No entanto, isso quer dizer que tenho vínculos profissionais estreitos com cada um dos 48 co-autores? Lógico que não, vocês sabem como funciona a ciência! Muitos eu nem conheço, caso inclusive de C.S. Agostinho. E, por ironia, meu karma maior é o Ângelo, que tem um mundo de colaboradores pelo Brasil!!!

À parte da minha situação, que é absurda, considere que eu não sou o único caso na UFT: existem outros casos semelhantes, desse mesmo concurso, nos quais os juizes estão deferindo liminares!

Mas aí eu pergunto: enumere concursos em que candidato e banca são absolutamente desconhecidos entre si? É virtualmente impossível. Nós conhecemos a realidade dos concursos no país. Isso não é defeito, longe disso; reflete algo natural, visto que especialistas devem avaliar especialistas. A existência de pessoas conhecidas nas bancas (que, por ironia, nem meu caso é; mas remete a idéia) é conseqüência natural do progresso da ciência. Nós, como pesquisadores, sabemos o quão importante é o contato entre instituições. E nós, como pesquisadores, sabemos que os pesquisadores, entre e dentro de suas áreas, se conhecem e, se não se conhecem, COMETEM GRAVE ERRO!! A ciência de qualidade precisa do contato! Quantos casos vocês devem conhecer de orientadores que sugerem ao aluno que preste determinado concurso, pelo conhecimento dos pesquisadores da instituição. Impedir esse contato freqüente seria o fim da ciência!!! Se o contato é uma realidade inquestionável, quem avaliará os concursos, senão aqueles que dominam a área?

Vale lembrar ainda o que acontece no caso de professores colaboradores que prestam concurso para efetivação na mesma instituição: o candidato necessariamente conhece as pessoas da banca, e por vezes tem relação profissional direta (o que a lei não permite)!

Mas pelo contato prévio entre candidato e banca, significa que a lisura do concurso foi manchada? Lógico que não, são cientistas-professores que avaliam os candidatos, pessoas com nome, reputação e futuro a zelar! Nós sabemos disso. Não são brincalhões jogando um jogo de política qualquer. Existe seriedade, idoneidade e lisura no nosso meio, e o que os juizes estão fazendo, ao deferir liminares, é justamente colocar em xeque um estandarte que poucos movimentos sociais possuem. Nessa situação, a integridade da comunidade científica como um todo está sendo maculada.

E considere também que, uma vez questionada essa realidade, abre-se um precedente histórico, imenso e absurdo no país: todos os concursos do passado, em todas as universidades, deveriam ser revistos. E qualquer concurso do futuro, que exista um ínfimo contato entre partes, abre a oportunidade de processo jurídico pelos demais concorrentes. Como ficarão os concursos do país nesse novo cenário? E a comunidade científica, que mostrou-se sem credibilidade perante a sociedade? E a soberania das universidades, vergonhosamente questionada?

Vocês conhecem a lisura de pessoas como o Ângelo, que jamais daria um passo antes de perguntar se é ético. E a comunidade científica, como um todo, é repleta de pessoas assim; nós sabemos disso. Os incidentes relatados representam um duro golpe a um passado de correção e integridade ética.

Por favor, jamais se sintam obrigados a escrever nada, só achei o tema importante. Pensem se vale a pena escrever algo sobre essa palhaçada. Eu sou parte diretamente lesada, portanto não aceitem meu viés; avaliem no âmbito das instituições.

Obrigado pela força!

Fernando M. Pelicice

O artigo de Lei a qual o Fernando se refere diz exatamente o seguinte:

Artigo 20º. da LEI Nº 9.784 (que regula o processo administrativo no âmbito da administração pública federal), de 29 de JANEIRO de 1999 que diz: Art. 20. Pode ser argüida a suspeição de autoridade ou servidor que tenha amizade íntima ou inimizade notória com algum dos interessados ou com os respectivos cônjuges, companheiros, parentes e afins até o terceiro grau.

A co-autoria em um trabalho com mais cinco autores foi realmente visto como um indicador de amizade íntima e o fato de um dos membros da banca ter relação de parentesco com o ex-orientador foi suficiente para que o concurso fosse anulado e o Fernando demitido.

Em apoio a causa do Fernando e para que o mesmo não torne a se repetir, o Bafana pede a aqueles leitores que são professores, orientadores, concursados etc… que se manifestem, seja aqui no blog, ou divulgando este assunto entres colegas e interessados. Não espere ser a próxima vítima para também abraçar a causa!

O Bafana agradece, e sucesso Fernando!!!

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9 Respostas

  1. Sidinei M. Thomaz Says:

    Esse relato é triste, lamentável e nos remete a mais um dos absurdos cometidos em nome da lei em nosso país! É triste, principalmente para quem conhece a ética e a competência do Fernando M. Pelicice. Basta dizer que recentemente, um de seus artigos recebeu um comentário na revista Nature! Precisa dizer mais de um recém-doutor? Mais lamentável é a falta de ética de quem entrou com o recurso, aproveitando brechas (que a despeito de “legais”, são muitas vezes “imorais”!) da nossa legislação. Esse fato é preocupante e sinaliza para um forte golpe na ciência brasileira, pois como bem disse o Fernando, a ciência (e principalmente a ecologia) não é mais produzida individualmente. Ironicamente, aqueles que menos produzem (por não se associarem), serão os mais beneficiados em concursos vindouros. Não desanime Fernando! Estamos torcendo por você. De resto, só nos cabe lamentar por termos pessoas no meio científico que se utilizam de todos os meios para derrubar os mais competentes, incluindo o famoso “tapetão”!

  2. Rodrigo S. da Costa Says:

    Simplesmente um absurdo.
    Como amigo do Fernando e também um concursado em universidade pública, só tenho a lamentar esta situação ímpar.
    Saiba, Ferus… que sempre terá meu apoio de forma incondicional.
    Ética e respeito são marcas do meu grande amigo Fernando.

    Abraços

  3. Maria José A. Vilela Says:

    Colegas,

    não costumo freqüentar blogs – não por preconceito, é que o dia é curto prá tanto-, mas tomei conhecimento da presente situação através das correspondências da ABCPesca. Não conheço pessoalmente o Pelicice, mas conheço parte de sua ótima produção, inclusive por muitos trabalhos na mesma bacia do Paraná. Conheço, sim, o Angelo, de quem fui orientanda no doutorado, que além de uma pessoa muito querida, é de uma ética inquestionável! Tive também oportunidade de ouvir algumas palestras/apresentações do Carlos Agostinho, um pesquisador sério e investido de uma garra de trabalhar que é quase comovente, em sua pouca idade (ou talvez até por isso) e imagino o que deve significar para eles vivenciar tal situação. Solidariedade a todos os três e esperança de que a solução venha logo e em favor da correção, da justiça e do bom senso. Abraços, Maria José.

  4. Weferson J. da Graça Says:

    Eu ainda estou completamente perplexo com toda essa triste situação que está ocorrendo com o Fernando. Logo com o Fernando, exemplo de dedicação, competência e ética. Fico mais triste ainda por ter acompanhado todo o processo do concurso, pois eu também me aventurei em terras Tocantinenses para fazer o concurso, foram incontáveis as vezes que fui conversar com o Fernando e ele estava com pilhas de livros de Filosofia, História da Ciência, História da Ecologia, entre outros, estudando para esse concurso. É ainda mais frustrante, ver que pessoas se utilizam das nosssas confusas leis para se beneficiar, fazendo com que pessoas (cientistas) como o Fernando e os irmãos Agostinho tenham sua imagem injustamente ferida. Ao meu ver, o Fernando sem sombra de dúvida é um dos jovens mais promissores em Ecologia, pois é genial, competente, dedicado e ético. Força Fernando!!!!

  5. Heloísa Beatriz A. Evangelista Says:

    Há uma máxima dos rabinos que diz mais ou menos o seguinte: “é preferível sofrer uma injustiça do que cometê-la”. Eu, que comecei na Biologia depois do Fernando, sei que o que ele está vivendo é uma grande injustiça. E se eu o conheço bem, ele a está suportando com uma grandeza que não se encontra facilmente por aí. De fato, é por isso que ele foi e será para nós um exemplo e um modelo de cientista. Apesar de muito jovem, é um brilhante cientista e uma pessoa íntegra. Como brilhantes e íntegros cientificamente são os seus colaboradores, os irmãos Agostinho, que, para nós, são sinônimos de grande biologia e paixão pela ciência. Estamos torcendo pelo Fernando e para que isso seja resolvido da melhor forma possível. Nós acreditamos que “o sábio faz o seu trabalho sem almejar os prêmios”. Torço por você. Abraços, Heloísa

  6. Rodrigo Says:

    .

    Mais uma pedra no caminho de quem quer seguir uma carreira científica, que já não é fácil pelos mais variados motivos que os colegas sabem de cor e salteado.

    Os magistrados desse país deveriam ser bem melhor preparados do que esse(a) que deferiu essa infame liminar. É uma vergonha que o poder judiciário tenha nos seus quadros juízes que trabalham sem a menor imparcialidade como parece ser o presente caso.

    Cheers,

    .

  7. Cristina M. Pisicchio Says:

    “Coisas do Brasil”? Não, infelizmente a sociedade brasileira ainda vive da máxima de “dar um jeitinho”! Não conheço o Fernando pessoalmente, mas sei de seu trabalho sério e honesto. Quanto aos outros pesquisadores, creio que alguém que é reconhecido e respeitado em todo o país por seu trabalho, não colocaria a carreira em dúvida para favorecer qualquer pessoa, ainda mais alguém como o Fernando que é reconhecidamente competente. Tenho esperança que se faça justica, pois ainda acredito que nosso país tem solução e que sempre encontramos pessoas sérias e honestas em nosso caminho. Boa sorte Fernando!

  8. Baxlursualf Says:

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