Ele é, pra dizer o mínimo, um dos maiores conhecedores do impacto de reservatórios sobre os peixes, especialmente os migradores. (Lattes do Prof. Agostinho, aqui).
Pela internet e de Lima (Peru) ele concedeu esta entrevista ao Bafana, que só agora consegui postar (desculpem o atraso), segue:Bafana Blog: O que você foi fazer no Peru?
Angelo Agostinho: Estive no Peru entre 16 e 19 de março para uma série de três palestras: “Biodiversidad en ambientes acuáticos”, “Cambios en la diversidad biologica acuatica produxidas por represas” e “Estandares ambientales en Brasil y las conclusiones de la Comision de las Represas”. As duas primeiras foram apresentadas no evento “Sistemas Fluviales Y Represas: biodiversidad, conservación e impactos ambientales” promovido pela WWF em associação com duas Universidades locais e a última em um evento patrocinado por uma das comissões parlamentares que está discutindo a expansão de hidrelétricas no Peru, incluindo o Acordo de Integração Energética Peru-Brasil.
Blog: Como partiu o convite para você palestrar nesta Comissão Parlamentar?
Angelo Agostinho: O convite partiu dos promotores dos eventos atendendo sugestão do Jose Arenas Ibarra (Pepe), peruano que fez seu doutorado na Universidade Estadual de Maringá (PEA) e participa do esforço de regulamentação da legislação ambiental do Peru, em particular no que se refere a grandes empreendimentos de engenharia.
Blog: Eles estão fazendo uma reforma constitucional ou é apenas uma reforma nas leis ambientais?
Angelo Agostinho: Estão buscando aperfeiçoar a legislação ambiental para assegurar uma exploração racional de seus recursos naturais, em especial na Amazônia peruana, para onde estão previstas as usinas hidrelétricas a serem construídas como parte do acordo Brasil-Peru.
Blog: Os bagres amazônicos não distinguem fronteiras, já que suas larvas crescem no estuário de Belém e ao crescerem, migram para os países que fazem fronteiras com o Brasil. Assim, a construção de uma grande obra em um país afeta também o uso deste recurso em outros. Você acha possível, numa reforma de lei nacional, incluir um tópico que preveja problemas internacionais?
Angelo Agostinho: A área foco dos reservatórios hidrelétricos peruanos é a bacia do Madeira. Portanto, se problema houver esse terá sido desencadeado pelos empreendimentos brasileiros em construção.
Blog: É realmente possível, mitigar o impacto negativo da construção de barragens nos estoques pesqueiros, em especial no dos migradores? Isto já foi feito em algum lugar do mundo?
Angelo Agostinho: Os reservatórios afetam especialmente esse grupo e a intensidade dos impactos depende principalmente das características particulares da migração (“homing”), da localização da barragem em relação aos habitats críticos para o ciclo de vida (locais de desova, criadouros), do tempo de residência, entre outros aspectos. Embora impactos de represamentos sobre os estoques de salmonídeos tenham sido mitigados na America do Norte, não há evidências de resultados semelhantes para espécies tropicais.
Blog: Você poderia citar casos, em que a presença dos bagres migradores impediu a construção de barragens?
Angelo Agostinho: Creio que o destaque que você está dando para aos bagres é motivado pela possibilidade de alguns membros desse grupo ter um comportamento migratório distinto das dezenas de outros migradores de longa distância (“homing”), tornando seus estoques mais susceptíveis à interceptação de suas rotas migratórias. A presença dessas populações não tem sido suficiente para impedir a construção de barragens. A questão que tem sido colocada é se há solução para a preservação dessas espécies e a de outros migradores num cenários de reservatórios em cascatas. Num workshop realizado em Vientianne (Laos), há pouco mais de um ano, a existência de solução para os estoques dos peixes migradores do médio e baixo Mekong (incluindo o gigante Pangusianodon gigas) foi exaustivamente discutida face a mais de uma dezena de reservatórios previstos para o seu trecho médio e baixo. A conclusão foi a de que os prejuizos são inevitáveis e esforços devem ser desenvolvidos para atenuá-los.
[Para saber mais do caso do Laos, clique aqui].
Angelo Agostinho: Pode parecer um chavão, mas não há omelete sem ovos quebrados. O planejamento na ocupação da bacia, respeitando os habitats críticos para a biota, pode preservar alguns deles e suas espécies associadas. Devemos considerar que, além da indispensável mitigação dos impactos pelas concessionárias hidrelétricas, devemos cobrar do Estado que o planejamento na ocupação da bacia vá além do atendimento das demandas energéticas, preservando, ao menos parcialmente, habitats, biotas e garantindo o compromisso com as gerações futuras.


abril 2nd, 2010 at 18:32
Ronaldo, parabéns pela entrevista; Angelo, parabéns pela contribuição, que mais uma vez atesta sua competência e influência, que extrapola nossas fronteiras. Essa bela história evidencia mais uma vez que a ciência básica (no caso, biologia e ecologia de peixes) é fundamental para atenuar impactos ambientais e melhorar nossa qualidade de vida. Em suma, nosso amigo Angelo pode ter influenciado, com seus conhecimentos, a tomada de decisões acerca do meio ambiente que afetarão uma nação inteira.