Dizem que o futebol foi criado oficialmente em 1863 na Inglaterra. Mas isto, convenhamos, é o mesmo que afirmar que a história da humanidade se iniciou quando nossos ancestrais primitivos desceram das árvores e foram se modificando, por meio da seleção natural. Na verdade, o que aconteceu antes dos pré-socráticos só interessa a paleontólogos e, talvez, colecionadores de antiguidades.
Neste sentido, vou me arriscar à dizer que o futebol começou à exatos 50 anos em 15/06/1958, quando Garrincha foi finalmente escalado para um jogo de Copa do Mundo à fim de enfrentar o “científico” e “imbatível” time soviético. O jornalista Ney Bianchi descreveu na Manchete Esportiva, aqueles que já foram considerados os três maiores minutos do futebol (imagens Seleção Brasileira e Seleção Russa):
“Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido pra direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito de pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para esquerda, mas não vai, sai pela direita. Kusnetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kusnetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kunetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio de campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.”
“A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, e esta a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem como o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.”
Para Paulo Mendes Campos, que sempre acreditara em Garrincha, “a mágica ganhara da lógica” e para Ruy Castro que reproduziu o texto acima na biografia A Estrela Solitária, Garrincha fez o que fez, pois representava a anti-ciência soviética, com suas pernas tortas, seus dribles simples e imprevisíveis, seu sangue impuro, resultado de uma mistura de vários povos.
Os últimos estudos científicos sobre futebol mostram que não há modelos matemáticos ou tendências estatísticas que consigam prever com segurança o resultado de uma partida, ao contrário do vôlei ou beisebol, por exemplo. Por isto o futebol é apaixonante, por isto o futebol é arte, ou seja, aquilo que transcende a lógica. O futebol nasceu na Inglaterra? Ok, mas o seu varão foi Garrincha. Aliás, típico dele.
Confira alguns vídeos deste momento incrível do futebol mundial (por incrível que pareça, há pouca coisa em português disponível na rede):
E aqui um tributo a Mané Garrinha:


