A maçã de Turing

Turing e as Maçãs

Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático Alan Mathison Turing matriculou-se numa organização de defesa que aceitava voluntários. Quando perguntado no formulário se compreendia que a partir daquele momento, estava sujeito as leis militares, respondeu não. Com o treinamento, tornou-se um exímio atirador, mas não participava das paradas e lhe foi pedida uma explicação. A dele era simples como a resolução de uma equação de primeira ordem: como havia respondido não no questionário da matrícula, ele não era um soldado e não devia explicações.

Nem por isto o jovem de 28 anos deixou de ajudar os ingleses na Guerra. E que ajuda! Com uma vasta teoria matemática na cabeça, já comprovada durante seu curso na Universidade de Cambridge e depois com seu trabalho: “Sobre os números computáveis, com uma aplicação aos problemas da decisão” (confira abaixo), realizado em Princeton, no qual delineava o conceito de uma máquina hipotética de computação universal (que chamamos hoje de computador), Turing foi parar no Departamento de Comunicações do Ministério de Relações Exteriores e sua missão era, nada mais nada menos, que desvendar os códigos secretos das mensagens alemãs.

Foto do Livro

David Leavitt conta em seu O Homem Que Sabia Demais: Alan Turing e a Invenção do Computador (Editora Novo Conceito, 2007, 221p.) que em 1938, Turing fez um curso de criptografia (a ciência de “embaralhar uma mensagem para só o destinatário entendê-la”) já prevendo que sua ajuda na Guerra iminente seria neste ramo.

Mesmo assim, em 1939, Turing teve tempo de assistir ao curso de Wittgenstein que era ministrado em sua sala pequena e austera, com os estudantes sentados no chão ou nas cadeiras que eles mesmos traziam. Inesperadamente o recatado Turing era um dos mais falantes sempre pronto a desafiar o professor, que realmente por vezes se exasperava com a necessidade ferrenha que Turing tinha de se agarrar à lógica (sabemos os detalhes dos diálogos pois, dois ou três alunos faziam a transcrição do que era dito em aula). De qualquer forma, o curso parece ter sido enriquecedor para Turing, que ouviu inúmeras vezes uma das frases mais famosas de Wittgenstein: “Não tratem seu senso comum como um guarda-chuva. Quando entrarem na sala para filosofar, não o deixem lá fora, tragam-no com vocês.”


Turing e a Enigma

No final de 1939, Turing se apresentou em Bletchley Park , a 80 km de Londres, onde começou a trabalhar para ajudar a desvendar os códigos alemães feitos na Enigma, uma máquina pequena inventada nos anos 20 pelo engenheiro alemão Arthur Scherbius, que gostaria de vendê-la para industriais ciosos de seus segredos, mas que acabou tendo um único freguês: o governo alemão.

A Enigma era tão boa que possibilitava 17.576 possíveis rotas para uma letra assumir dentro de uma mesma mensagem! Por isto, mesmo no final da guerra, quando os aliados já conseguiam (não sem muuuuuito trabalho) decifrar quase todas as mensagens, os alemães continuavam a acreditar que a Enigma era inexpugnável e que as falhas de segurança se deviam a espionagem (para um patriota a culpa é sempre do inimigo externo, nunca dele mesmo…).

Pois é, mas a matemática pura foi mais decisiva que a espionagem. Em pouco tempo Turing escreveu um manual de centenas de páginas explicando os fundamentos teóricos da linha de ataque que o grupo adotaria contra a Enigma (não se engane, aquele filme de anos atrás chamado Enigma, não fala nada sobre Turing). Este manual ficou conhecido como “Prof.’s Book”, já que Prof. era o apelido de Alan em Bletchley que, ao se levar em conta um período de guerra, teve uma atmosfera cordial segundo todos que por lá passaram.

A Contra-Enigma "Bomba"


Ao pensar pela primeira vez em sua máquina universal no trabalho dos “números computáveis”, Turing não estava preocupado com a rapidez de processamento dos cálculos, o que evidentemente foi mudado nestes anos de guerra e no trabalho junto com os engenheiros que construíram a “contra-enigma” uma engenhoca enorme apelidada de “bomba”. Com isto em mente, ele recusou, em 1945, um cargo em Cambridge e associou-se ao Laboratório Nacional de Física, chefiado por Galton Darwin (neto de Charles Darwin), para trabalhar no projeto de uma máquina de computação automática. Depois mudou de emprego indo para a Universidade de Manchester, mas sempre participando em projetos vinculados a construção de tal máquina inteligente, apesar de que nas “horas vagas” ainda teve tempo de escrever trabalhos de matemática pura e de matemática aplicada a biologia.

Um de seus textos mais famosos é “Máquinas computacionais e inteligência” (Confira abaixo) com análises técnicas e considerações filosóficas, já que naquela época muito se especulava se as máquinas iriam dominar o mundo (Algo parecido com o que ocorre hoje com toda esta história do genoma e clonagem humana). Mas a argumentação de Turing é muito interessante: ele dizia que a infalibilidade não é necessariamente um pré-requisito da inteligência, por isto as máquinas não seriam necessariamente inteligentes. Mas ao mesmo tempo o aborrecia a tendência “maquinal” dos intelectuais em achar que uma máquina nunca pode alcançar o cérebro humano, simplesmente porque o cérebro é… humano. Ele se perguntava se um carro precisava de pernas para correr mais que um humano.

"Run Turing, run..."

Turing sempre foi homossexual, isto é, nunca pensou em casar ou teve uma namorada. Em 1952 se envolveu com um garoto de programa que o assaltou. A polícia ficou sabendo da história e como na época homossexualismo era crime, além de preso, Turing teve que tomar injeções de estrogênio para “se curar”.  A mesma lei que condenara Oscar Wilde 50 anos antes, pegara Alan agora.

Foi demais pra ele, que escreveu a um amigo: “Turing acredita que as máquinas pensam/ Turing deita-se com homens/ Portanto as máquinas não podem pensar.” Desta forma, em 07 de junho de 1954 se matou ao morder uma maçã envenenada com cianureto. Desde 1938, quando assistira pela primeira vez “Branca de Neve” de Disney se encantara com a cena na qual a Rainha Malvada envenena a maçã e diz: “Mergulhe a maçã no caldo/Deixe o sono imortal impregná-la”.

A famosa cena da Maçã


Sim, Sir Turing, a imortalidade o impregnou. Sem você eu não estaria escrevendo nesta máquina (cujo logotipo é o de uma maçã mordida, segundo a Apple, nada haver com Turing). E o leitor não estaria lendo minhas palavras neste vídeo.

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E aqui o Bafana traz de lambuja os dois famosos artigos do Turing citados no texto:

On Computable Numbers… by AM Turing (1936)

Computing Machinery and Intelligence by Am Turing (1950)

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