Carta para um recém formado

Este texto de estréia, da nova versão do Bafana Ciência, foi meu discurso como paraninfo proferido na colocação de grau dos alunos do Curso de Biologia da Universidade Estadual de Goiás (Anápolis) em 10/08/2007. Na verdade este texto também pode ser lido como uma resenha do recomendável “O valor do amanhã” de Eduardo Giannetti (Editora Cia. das Letras, 337p.).

Carta para um recém formado

Caros ex-alunos

Finalmente é chegada a hora de terminar outra etapa na longa marcha da vida, e então me parece um bom momento para refletir sobre esta própria vida.

Há 4 ou 5 anos atrás, vocês escolheram a profissão de biólogo e professor de biologia, justamente naquela idade que, segundo um pensador, é a “fase da vida humana onde o desprezo pelo risco e a esperança presunçosa de sucesso se encontram mais ativos” (1). 

É provável que alguns dos pais, que hoje estão aí muito orgulhosos, ficaram apavorados pela escolha. “Biologia? Não tem nada mais rentável?….”.E os pais, obviamente devem ter se lembrado de Lupcínio Rodrigues: “Esses moços/ Pobres moços/ Ah se soubessem o que eu sei…”. É difícil, não é mesmo? Enfim, como diria outro poeta “…a luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás” (2), isto é, cada um tem que passar pela experiência de encarar a vida por si mesmo, navegando com seu próprio barco.

É claro que hoje, apesar da apreensão normal com o futuro dos filhos, os senhores pais e familiares já entenderam melhor a ocupação que estes formandos, exercerão nos próximos anos. Obviamente, nem todos seguirão este caminho a vida toda, mas de qualquer forma, tenho certeza que os senhores estão muito felizes e festivamente surpresos, de saber que o esforço familiar é agora recompensado com o final do curso. Foi uma turma acima da média. O seu filho ou filha, parente ou amigo pertenceu à ela. Podem ficar verdadeiramente orgulhosos.

Evidentemente, a estrada é longa e os senhores ainda verão estes moços e moças tendo que superar outras barreiras e à partir de agora depende ainda mais só deles. “Chega de mamata”, não é mesmo? Eles já estão maduros e como diria o Nelson Rodrigues “O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”. Conhecem aquela do Noel Rosa? “Fui louco, resolvi tomar juízo; a idade vem chegando e é preciso”. Então, agora eu já posso levá-los também à sério…É meu caros, “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade” (3).

Vou contar uma história pra vocês que o filósofo David Hume uma vez narrou: “Um homem cavalgava com grande pressa e já quase levava o cavalo ao limite da exaustão. A certa altura da viagem, ele parou por um instante para perguntar a alguém quanto tempo faltava até o lugar de destino. O camponês respondeu: ‘São duas horas se você for mais devagar, mas serão quatro se você continuar com tamanha pressa’” e completou o filósofo, “para um jovem que se aplica às artes e às ciências, a lentidão com que ele se forma para o mundo é um bom sinal”. O estudo profícuo e refletido pede calma, não pressa. Devagar pode ainda ser mais veloz (4).

Então, agora, formados, diante do “mundo vasto mundo”, há que se ter primeiro, paciência com os entraves da caminhada ou as tormentas das águas a navegar. Aliás, alguns experimentos de longa duração, mostram que crianças mais pacientes (com maior disposição e aptidão à espera) tornam-se adultos com melhor desempenho acadêmico e depois com menor incidência ao tabagismo, entre outras virtudes. Se você ainda é o jovem impaciente que quer “tudo pra ontem”, calma que nada é pra já. Até o amor, talvez principalmente ele, necessita amadurecer.

Vocês podem me perguntar “Mas Ronaldo, por que você dá conselhos se a experiência é lanterna na popa e cada um tem que ter a sua?”. Bem, eu sei que a eficácia destes conselhos é duvidosa, mas uma vez um velho poeta alemão disse “O erro repete-se sempre na ação, por isso deve-se incansavelmente repetir a verdade em palavras” (5). Então, a minha esperança é que vocês cometam seus erros ou o mais rápido possível ou, de preferência, em menor magnitude que este conselheiro.

Há uma frase sobre o passado muito usada nos meios ditos intelectuais: “Eu não me arrependo do que fiz, mas apenas do que deixei de fazer”. Gente, isto é uma arrematada besteira. Tenho a dizer a vocês que me arrependo de muitas coisas que fiz, com gestos ou palavras e também de muitas coisas que não fiz. Ainda hoje me condeno por meus atos. É a consciência, o sentimento de culpa, me chamando para não fugir de minhas atitudes e tentar melhorar a cada dia. Não é fácil. Me consolo no próprio esforço na estrada do aprimoramento. Nem sempre sou bem sucedido, mas acredito naquele poeta francês que disse que “uma seqüência de pequenos atos de vontade conduz a grandes resultados” (6). Tenho tido mais avanços que revezes.

Também é olhando pro passado que você percebe o quanto você mudou. Daí, por exemplo, que a diferença entre o jovem que fomos e a pessoa que somos é tão grande quanto à diferença entre duas pessoas. Vocês já pararam pra pensar como vocês eram quando começaram o curso? Fala a verdade: o envelhecimento ou amadurecimento faz um bem danado, não é não? Claro, às vezes dói a perna, dói as costas, já não dá mais pra correr atrás do ônibus, mas a cabeça e o espírito melhoraram bastante. Tudo está mais claro, mais palpável, menos imaginado, mais real.

Toda mudança é para melhor (7). Espero que vocês passem pelas suas, assumindo as responsabilidades por suas opções, diferente de certas autoridades que a todo o momento fogem delas dizendo que não sabiam de nada.

Outra moda acadêmica fajutíssima é dizer que não existe o bem ou mal ou que o certo e o errado só fazem sentido dentro do “contexto histórico”. É a turminha da impostura intelectual suprema que vive afirmando que “tudo é relativo”. Vocês aprenderam com seus pais os valores cristãos. Podem ter certeza, estes são ainda mais necessários no mundo de hoje do que no de ontem e serão mais necessários no mundo de amanhã do que no de hoje.

Bem, e o futuro? Eu faço uma idéia no que está passando por vossas cabeças: “Ai, meu Deus! Me formei e tô com a impressão que não sei nada”. “A Biologia é tudo aquilo e eu só tenho um parco conhecimento de parte dela”. Calma que isto é normal, aliás se você está se achando o rei ou rainha da cocada preta, aí sim você pode começar a se preocupar. Lembre-se “A sabedoria começa com a constatação da própria ignorância” e nunca é tarde pra aprender.

No recente livro “O valor do amanhã”, o economista Eduardo Giannetti, coloca que para lidar com o amanhã é necessário realizar ações no presente que podem ser divididas em três elementos básicos: 1 – o futuro imaginado, com a pergunta “O que eu espero alcançar?” 2 – a estratégia: “Como eu chego lá?” 3 – implementação: “O caminho está sendo consistentemente trilhado?”

Imaginar o desejo, delinear a estratégia e implementar o caminho. É claro que o futuro não pode todo ser traçado de uma só vez. Você percorre um trecho, avalia e elabora outra estratégia de médio prazo. Felizmente para nós, este caminho não é tão exato e nem guiado integralmente pela razão. A vida seria sem graça se assim fosse. Ainda somos humanos e não máquinas.

Vocês já trilharam parte do caminho que optaram, chegaram aqui com suas estratégias de estudo e dedicação. E agora, José? O que esperam alcançar? Já é hora de delinear outros projetos. Aproveite e aprenda à contemplar seus próprios desafios, vivendo cada momento. Quem aprende a caminhar apreciando a paisagem sem deixar de focar o objetivo, viverá mais prazerosamente os momentos. E é deles que a vida é feita (8).

Pode parecer inacreditável aos olhos de vocês, mas este país é hoje melhor do que era 30 anos atrás e se aqui vocês chegaram é por que já ultrapassaram aquele nível de renda que apenas permite atender as necessidades básicas. Desta forma, o uso do tempo passa agora, a depender muito mais das suas prioridades e valores do que do imperativo de aumentar a sua renda a todo custo (9).

Para finalizar: o pintor Van Gogh uma vez disse “Sinto que a vida das pessoas se parece com a do trigo: se não somos semeados na terra pra germinar, somos moídos para virar pão” (10). Com seus esforços e suas escolhas vocês podem decidir o querem: cair na terra pra germinar ou ser moído na massa da mediocridade. Assumam suas opções com responsabilidade. Hora de amadurecer.

Boa sorte e boa noite.

Citações:

1 – Adam Smith; 2 – Samuel T. Coleridge; 3 – Nelson Rodrigues (não citado por Giannetti); 4 – citado por Giannetti (p. 103); 5 – Goethe; 6 – Baudelaire; 7 – Fernando Sabino (não citado por Giannetti); 8 – Apesar da crença que isto é de Borges, Giannetti diz ser de Nadine Stair (p.308); 9 – Esta é do próprio Giannetti (p. 195); 10 – Esta frase maravilhosa está numa das cartas de Van Gogh para um de seus familiares (não citada por Giannetti).

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4 Respostas

  1. Dr. Pivomar Says:

    Hah, muito bom Ronaldo gostaria de ter ouvido estas palavras em alto e bom som. E realmente, a Biologia pode não ser a profissão mais rentável, mas sim, a mais rica e cheia de vida. Cada formando, independente das adversidades escolheu esta profissão e seguiu em frente.

    Parabéns Ronaldo e sucesso aos formandos!

    Att, Pivo.

  2. Ademir Luiz Says:

    Grande texto! Repleto de ironia, mas, ao mesmo tempo, realista e, sobretudo, inteligente. As citações foram muito bem escolhidas e ligadas. Contudo, o mais interessante é que, apesar de tudo, não é desprovido de esperanças. Pelo contrário. Mostra que há luz no fim do túnel.

    Parabéns.
    Ademir Luiz

  3. Glauber Rocha Says:

    Muito prezado profº Ronaldo.

    Até os 4 anos da universidade é bom demais.(Nós sonhamos até em ser professor de escola pública, mas…………)Mas quando este estudante recém-formado passa no concurso público para ministrar aulas em escola pública?O que ele vai encontrar?
    O seus esforços, lutas e sonhos,horas de estudos,congressos
    tornan-se,simplesmente, um pesadelo.È como naquela história que o neurologista e escritor,Oliver Sacks , relata: De um Homem que acordou depois de muito tempo e confundiu sua mulher com um chapéu.Só que na educação pública o chapéu que as políticas públicas nos dão, são:Salas com 42 alunos,alunos indisciplinados,jornada de trabalho estafante. E o pior é que o recém-formado não vê utilidade nenhuma do seu serviço para a sociedade.Assim, se o estudante de Biologia vier para este lado nada animador,tenha em mente essa frase de Dante Alighieri:”Deixai aqui todas as esperanças,ó vós que entrais”.

    Ad Majorem Deo Gloriam

    Muita luta aqui lutareis,
    Muita cruz e dor sofrereis,
    Santos costumes guardareis,
    Caminho estreito tomareis
    E muita reza rezareis,
    Enquanto aqui permaneceis:
    Assim,depois,em paz sereis.
    (Dirk Rafaelsz Camphuysen; Tradução:Manuel Bandeira)

    Glauber Rocha
    Ex-aluno do profº e agora professor de Biologia e Ciências da rede pública de ensino Goiás

  4. Rodrigo Costa (Nupélia) Says:

    Ronaldo…
    … mais uma vez eu digo: Você é uma das pessoas que me espelho para que minha vida tome o rumo que está tomando.
    Parabéns por tudo…pelo que escreve, pelo que critica, pela virtude de ter sido um aprendiz e agora um excelente mestre.

    Abraços

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