A divulgação científica, objetivo principal deste blog, é uma atividade que tenta explicar os métodos e resultados de trabalhos e problemas científicos numa linguagem acessível ao chamado público leigo. Os textos de divulgação científica são também a melhor forma, talvez a única, de pesquisadores cada vez mais especializados, adquirirem “cultura geral” sobre ciência.
Vira e mexe divulgadores como eu lamentam o pouco espaço na mídia para fazer sua atividade. Mas recentemente, o MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia) apresentou o relatório, Percepção Pública da Ciência e Tecnologia mostrando que o público de modo geral, está satisfeito com a qualidade e quantidade do assunto Ciência & Tecnologia abordado principalmente em telejornais.
Os pesquisadores consideram muito importante a divulgação científica e a maioria acha que este tipo de atividade é recente. Mas não é. Um dos precursores foi Galileu Galilei que em 1632 publicou Diálogo sobre dois máximos sistemas de mundo em italiano e não em latim, como era esperado para um erudito da época, justamente para poder divulgar e consequentemente ter mais apoio à suas idéias consideradas heréticas.
No Brasil a atividade também não é nova e nem se iniciou em 1982 com a criação da Ciência Hoje. No livro “Domingo é dia de ciência: história de um suplemento dos anos pós-guerra” (2006, Azougue Editorial, 199p.), o autor Bernardo Esteves conta a história de Ciência para Todos (CpT), um suplemento publicado no último domingo de cada mês, entre março de 1948 e abril de 1953 pelo jornal carioca A Manhã. Para escrever seu livro, B. Esteves contou com a valiosíssima ajuda do professor (geneticista) Oswaldo Frota-Pessoa que, além de ter sido atuante na publicação do CpT, conservou 60 dos 62 fascículos publicados.
CpT teve muitos colaboradores e contava com artigos, matérias, resenhas, colunas, seção de cartas, enfim, tudo o que hoje se faz, por exemplo, nos cadernos de “cultura” dos grandes jornais. Isto tudo há 55 anos atrás! A década de 20 também teve muitos divulgadores de ciência, mas isto fica pra outra hora.
O interessante é que em 1949, a tiragem dominical dos cinco principais jornais publicados no Rio de Janeiro somava 500 mil exemplares. A Manhã, que publicava CpT, era o 6º em tiragem com 73 mil. Três anos depois, estes números saltaram respectivamente para 616 mil e 40 mil. A crise em A Manhã, que então passou a ocupar o 15º lugar no ranking de tiragem, foi uma das desculpas para a interrupção da publicação de CpT em 1953.
Recentemente, num artigo em The Economist (desculpe leitor, minha mudança ainda não está totalmente arrumada e não consegui encontrar a revista), um colunista se espantava que o jornal de maior circulação no Brasil, a Folha de São Paulo, vende apenas 300 mil exemplares diariamente, num país que tem 180 milhões de habitantes. É claro, hoje temos a internet, mas de qualquer forma, a proporção relativa de leitores despencou. Além disso, nosso mercado editorial é do mesmo tamanho de Portugal, que tem pouco mais de 10 milhões de pessoas. Outra informação ainda me espanta: o número de livrarias no Brasil hoje é praticamente o mesmo que na década de 50 quando tínhamos 45 milhões de patrícios.
O que esta digressão nos mostra? Ora, num país em que ninguém lê nada, incluindo, sim senhor, professores universitários e cientistas (sempre muito ocupados, claro, claro….), não dá pra ficar reclamando que a grande mídia não fala de ciência, porque afinal, nós não temos uma “grande mídia”. Há também o fato que nos faltam bons divulgadores científicos, mas mesmo que estes apareçam estimulados por trabalhos como os de B. Esteves, Ildeu de Castro (um de seus orientadores) e os livros editados por Luísa Massarani, a pergunta seria: haveria leitores?
Bem, não nos resta outra saída se não continuar tentando, ensinando, dando exemplo… e lendo…

