Yes! Cukierman comenta resenha do Bafana

Por Mila F.

Tempos atrás fiz uma longa resenha (em três partes) do livro Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.). Se quiser ler as resenhas, clique aqui para a primeira, a segunda, e a terceira.

Agora o autor, o simpático Henrique Cukierman, fez um longo comentário destes artigos que reproduzimos aqui neste post. Cukierman aponta algumas falhas do jeito Bafana de interpretar, e claro, agradece esta oportunidade de discutir este interessante assunto para a ciência brasileira.

Com vocês o autor:

Primeiramente quero agradecer a (rara!) oportunidade do diálogo público a respeito do meu livro. Desde já, vai aqui o afeto que se encerra em meu peito já não tão juvenil. O livro é o resultado de sete anos de pesquisa intensa e dedicada, sem falar no enorme esforço posterior para publicá-lo (ou seja, também quero de cara protestar contra a “facilidade” com que você, face a justas críticas de editoração, atribuiu-me um “certo desleixo” na realização deste volumoso empreendimento), o que faz com que tamanha oportunidade seja para mim uma benção, uma certeza de que valeu a pena o esforço. Muito obrigado mesmo!

Também gostaria de parabenizá-lo pelo esforço de “trocar o livro em miúdos”, de buscar trazê-lo para um público maior, de resumi-lo e simplificá-lo para facilitar a divulgação de suas proposições. Neste sentido, não sei se sou a pessoa mais indicada para discutir o seu texto, pois, como autor, imaginei um leitor interessado na discussão acadêmica (não no sentido pejorativo, diga-se de passagem) e, portanto, por reduzir sua força e seu sentido, causa-me uma certa estranheza a simplificação das minhas proposições. Vou apontar aqui dois exemplos desse “estranhamento” (estou me referindo aos 3 posts do blog sobre o livro), reiterando que deve ser relevada a minha condição (des)privilegiada de autor:

Contagio Charge


1) não propus que “se fazia necessário construir um local para produzir soro, vacina e diagnósticos mais precisos”. Este sujeito indeterminado definitivamente não faz parte dos meus argumentos, pois foi exatamente o contrário que procurei mostrar, a saber, o esforço dos nossos cientistas em tornar necessária uma tal construção, em convencer as autoridades governamentais, coisa nada fácil, que seria urgente construir um local assim. Ou, conforme procurei ressaltar à luz das proposições de Bruno Latour, as traduções mobilizadas para uma tal construção (lembre-se que, para dar conta da complexidade do que seja o esforço de tradução, indiquei, entre outros, a ausência de evidências quanto à impossibilidade alegada por nossos cientistas de se importar o soro da Europa, a qual, no entanto, foi um argumento chave para convencer as autoridades) e as dificuldades de empreendê-la (ou seja, de tornar uma determinada tradução hegemônica e estável), pois bastou que a peste amainasse para que provisoriamente se abandonassem os planos de construir localmente um instituto soroterápico, só retomados posteriormente graças a uma “ajudinha” do micróbio da peste (como aliás você lembra muito bem), ou em termos dos “academicismos” que utilizo, graças a um aliança com um não humano.

Parece um detalhe, mas para mim é fundamental explicitar que a ciência não é neutra. A indeterminação do sujeito que você utilizou é a forma mais subreptícia de reintroduzir essa neutralidade, ou seja, como se a necessidade de construir um instituto soroterápico viesse de “lugar nenhum”, como se prescindisse de qualquer tradução, como se estivesse fora do tempo e do espaço.

Combate à Febre Amarela

2) Também não propus que “sua desenvoltura [de Oswaldo Cruz] nos meandros enfadonhos e pouco éticos da administração ‘lá-fora’ permitiu o trabalho de outros (e dele mesmo) nas bancadas do laboratório, pois ele era o grande representante do pessoal do ‘aqui-dentro’”.

Eu não aposto um centavo sequer nessa separação em nenhum momento do livro, ou seja, a divisão entre um ‘lado de dentro’ e um ‘lado de fora’ do laboratório é evidenciada por mim como uma proposta dos próprios cientistas para separar a ciência da sociedade de forma a reafirmar a pretensa neutralidade da ciência. Cito em meu auxílio trecho das pp. 104-105 do livro: “(…) linhas divisórias nem são fixas nem intransponíveis, e muito menos pertencem à ‘ordem das coisas’. Em verdade, vão sendo construídas e administradas para levar a rede o mais longe possível de modo que, sendo permanentemente redesenhadas, constituem o movimento que, em última instância, constrói a Natureza, a Sociedade e a separação entre ambas. O que significa, mais exatamente, este aparente ir e vir ao longo de limites, ora transpassados, ora respeitados? Além de esclarecer este suposto ziguezague, a formulação latouriana para Pasteur – “Por um lado, jogava sua rede tão longe quanto pudesse; por outro lado, negava que tivesse aliados e simulava (…) que tudo aquilo que fazia procedia da ‘Ciência’” [Latour, A Pasteurização da França, p. 71] – vale perfeitamente para Oswaldo que, como se fora uma encenação, representava a solidão daqueles seres entregues aos sacrifícios de uma causa nobre, a causa da ciência, ao mesmo tempo que se cercava de mais e mais aliados.

Enfim, poderia apontar mais alguns exemplos, mas resultaria um post muito longo e enfadonho. Prefiro parar por aqui (quem sabe já não é o suficiente para novos debates?), não sem antes fazer um pequeno e justo reparo: a FAPERJ não teve nenhuma participação na edição propriamente dita do livro, pois de fato não é uma editora mas sim o fundo de amparo à pesquisa do Rio de Janeiro, cujo valioso apoio, através de seu programa de editoração, foi o que tornou possível a publicação do meu livro.

Mais uma vez, meu muito obrigado!

Henrique Cukierman

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Henrique:

1 – Deu pra perceber que faço questão de tirar minhas próprias conclusões, não necessariamente das interpretações do autor que estou resenhando, mas dos fatos históricos narrados por ele e que eu não conhecia (a maioria, no caso do seu livro) e nem sempre concordo com o autor;

2– Eu tenho certeza que você não aposta um centavo na separação entre os lados de “dentro” e os de “fora” da atividade científica, e realmente me desculpe se não dei entender isto no meu texto. Mas, dada minha recente experiência na construção de um laboratório aqui em Goiás, eu aposto muitos centavos que existe esta divisão na cabeça de pelo menos 99% dos cientistas naturais. Mas isto é outra história.

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