Persépolis de Marjane Satrapi é um grande romance em quadrinhos, com personagens reais que lembram em muitos momentos a tristeza e desconsolo das graphic novels de Will Eisner (algumas obras aqui), o criador deste gênero de “literatura”.
O “gibi” mostra a história da menina Marjane que aos 10 anos de idade, morando em Teerã no Irã, é obrigada, como todas as suas coleguinhas, a usar o véu para ir à escola. Era 1980, um ano depois da Revolução Islâmica tomar o poder. De repente era proibido estudar junto com os meninos e sua escola bilíngüe foi fechada, já que contrariava os desígnios do novo regime que havia deposto o Xá (que também não era flor para se cheirar…).
Os pais de Marjane eram ricos e comunistas e ela cresceu sabendo a história de Che Guevara (aquela falsa que só conta os louros do demônio metido a galã) e comparando a barba de Marx com a de Deus com quem ela conversava todas as noites.
O livro é entremeado de fatos corriqueiros de um mundo normal assolado por mudanças significativas no plano político. Por exemplo, um cadáver de homem que morrera de câncer, mas sai do hospital carregado como herói da revolução, que estava por estourar, e quando o corpo é reclamado pela viúva, ela, convencida pela multidão, também sai gritando contra o Xá, a quem culpa pela morte do marido. Em outra oportunidade, a policia secreta vai entrar na casa de Marjane pra procurar “sinais do ocidente” (bebida, por exemplo) mas o pai dela dá uma gorjeta para os valentes e eles vão se embora.
Marjane vai contando sobre os adultos, primeiro aqueles executados pelo Xá, depois pelos revolucionários, depois os que morreram na guerra contra o Iraque e ela apenas querendo uma calça jeans e um pôster do Iron Maiden no quarto… Uma vez, com 13 anos, ela foi ao Shopping Gandhi, local onde eram vendidos muitos produtos ocidentalizados, comprar uma fita cassete da Kim Wilde. Na volta, sua jaqueta jeans atraiu o olhar das “Guardiãs da Revolução” que implicaram com seu bottom do Michael Jackson, e ela tentando dizer que aquele era o revolucionário Malcom X, já que o caçula dos Jackson era negro naquele tempo. Enfim, pra não ser levada pro camburão teve que abrir o berreiro sobre a sua vida, “sabe como é, seu guarda, a minha madrasta vai me matar se você não me deixar ir agora…”. Mais realista impossível.
Com catorze anos é mandada pra estudar na Áustria, já que seus pais não conseguiam mais controlar seu temperamento revolucionário nas escolas do Irã. Entre outras traquinagens, agredira fisicamente a diretora da escola.
Ela narra os problemas que teve em sua adolescência longe dos pais e compatriotas (drogas e namorados esquisitos, etc…), até voltar, quatro anos depois ao Irã, com o sentimento de total fracasso.
Como a vida continua, a jovem professora de aeróbica entra na Faculdade de Artes de Teerã, num vestibular muito difícil, por causa da prova ideológica que era oral: “Usava o véu na Áustria?”, “Sabe rezar?”… Foi difícil pra ela, mas acompanhe as respostas: “Não usei véu na Áustria, se os cabelos das mulheres trouxessem tantos problemas, Deus teria nos feito carecas…”, “Não sei rezar, como todos os iranianos não entendo o árabe, prefiro me dirigir a ele em Persa”. Depois descobriu que foi aprovada, simplesmente pela honestidade que usou com o examinador (ela o chamava de religioso de verdade). A vida continua.
Só pra saber, Persépolis é o nome da capital da Pérsia fundada no século VI antes de Cristo e destruída depois por Alexandre, o Grande. A vida de Teerã talvez seja assim, sempre reduzida a ondas avassaladoras de guerras e complicações, enquanto que o povo quer apenas escutar o Julio Iglesias… Ah! Estes governos…
O romance em quadrinhos foi filmado, recebeu vários prêmios e perdeu o Oscar de melhor animação para Ratatouille. Você pode encontrar farto material sobre este filme no site da Sony Pictures, fazer o download do gibi aqui e da animação nestes links part1 -part2 -part3 -part4.







outubro 7th, 2008 at 12:48
eu vi o filme e, apesar de triste, é muito bom!