abr 4

More Than Just a Game (movie)

Um dos chavões sobre a esquerda brasileira é que ela não era unida nem na prisão. Bem, parece que isto não é só um defeito de brasileiros. Na Robben Island, ilha símbolo do regime racista sul-africano conhecido como apartheid, os presos políticos de diversas facções também não se bicavam, nem na hora do futebol. Futebol na Robben Island? Por acaso presos políticos negros de cabelos pixaim podiam jogar bola, sem serem incomodados pelos guardas “brancos de olhos azuis”?

E não é que podia? Claro que não foi fácil, os presos tiveram que reclamar muito para conseguir este direito e contaram com a ajuda fundamental da Cruz Vermelha Internacional. Esta história é contada por Chuck Korr e Marvin Close em More Than Just a Game: Football V Apartheid (editora Collins, 2008), que traduzo livremente para: “Mais Que Apenas um Jogo: Futebol X Apartheid” e pode vir a ser um best-seller em 2010, quando a Copa do Mundo será jogada naquele país que foi banido do futebol pela FIFA em 1964, e assim permaneceu por quase 30 anos, quando a democracia finalmente nasceu na África do Sul (uma prévia do livro aqui). More »

jun 21

É um chavão, mas vá lá: normalmente quando se fala em África a maioria das pessoas vai logo pensando em hordas famélicas num ambiente árido e sem esperança. E então elas se perguntam se não têm culpa neste sofrimento, pois afinal, além da escravização de boa parte da sua força de trabalho, o ocidente colonizou seus países explorando suas veias abertas, para enriquecimento das nações além mar. Mas será que foi, ou continua, desta forma?

Robert Guest, editor de assuntos africanos para a The Economist em seu livro The Shackled Continent – Africa’s past, present and future (Ed. Macmilian, 280p., 2003, 11 libras e ainda não traduzido para o português, mas que poderia ter como título: “O Continente Acorrentado – O passado, presente e futuro da África”), tenta reverter a pergunta do porquê a África é tão pobre, para: por que a África é tão improdutiva? Por que mesmo representando aproximadamente 10% da população mundial este continente contribui com apenas 2% para o comércio mundial? Robert Guest morou em alguns países africanos durante três anos, e em 2004, após a publicação deste livro, ganhou o prêmio Bastiat de Jornalismo. Não sei se o prêmio é importante. Talvez seja. Mas o livro com certeza é. More »

nov 20

Be Happy Elefante

“Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais…” era assim que começava uma musiqueta que cantávamos, quando crianças, para atormentar os adultos. Depois veio o Jotalhão, o elefante do Maurício de Souza que acabou virando extrato de tomate, com o lema “o mais amado do Brasil”, ou algo similar.

Na África do Sul, e na África de modo geral, os elefantes ainda incomodam muita gente, mas atraem turistas, exigindo cuidados especiais da direção dos Parques Nacionais e dos gerentes das reservas particulares (chamadas de “game farms”). Estas propriedades são um atrativo negócio em que o fazendeiro ao invés de criar animais para abate, os cria para serem vistos por turistas em preservadas paisagens naturais.

O problema com o “way of life” elefantino é que ele é um glutão. Diferente das girafas que ficam com as folhas e espinhos, os indivíduos da espécie Loxodonta africana, preferem a árvore ou o arbusto inteiros na época seca, pois na chuvosa o consumo é exclusivamente de gramíneas. Apesar disso, eles consomem por volta de 165 espécies de plantas, o que o transforma no melhor dispersor de sementes do continente.

elephant Sun Enquanto estava em Cape Town, num programa no canal 3 (em tempo, há apenas 5 canais de TV aberta na África do Sul) houve um debate sobre o impacto dos elefantes na vegetação ciliar de alguns rios ao leste do país. A provisão de água, para eles mesmos e também para outros animais, estaria seriamente ameaçada, já que a derrubada da mata de galeria acarreta o carreamento do solo e conseqüente assoreamento do rio. Não há consenso, sobre o que fazer, entre os especialistas. Uns pedem pra deixar como está, pois alguns morrerão e o ciclo da vida continuará; outros acham que os elefantes devem ser “conduzidos” para outras áreas ou mesmo mortos, já que temem os impactos da população acima da capacidade suporte das áreas, o que acarretaria prejuízos para todas as espécies animais. More »

nov 6

O continente africano possui paisagens e flores magníficas, mas no quesito grandiosidade, alguns animais da África têm fama mundialmente inquestionável. As cinco espécies que recebem maior destaque são: rinoceronte, elefante, leão, búfalo e leopardo. O Rand, que é a moeda da África do Sul (7 Rands = 1 dólar), ostenta-os, respectivamente, em suas notas de R10, R20, R50, R100 e R200. Estranhou a lista? Cadê o hipopótamo, a chita, o gorila e a girafa? Na verdade, os chamados “big five” não são exatamente os “maiores”, mas sim os mais agressivos e perigosos ao homem.

MapinguariPor que a diversidade de grandes animais só é alta no continente africano? A resposta mais correta é o fator histórico-evolutivo, pois há 20 mil anos atrás, o continente americano também contava com mamíferos quase gigantescos: tatus, ursos, veados (com galhadas de mais 10 metros de largura) e o mais famoso deles, a preguiça gigante, que depois virou lenda na Amazônia com o nome de Mapinguari (tem até pesquisador atrás dela). Então, há cerca de 13 mil anos, o bicho-homem atravessou o estreito de Behring e caminhando (8 km/ano) até a Patagônia foi dizimando estas belas espécies.

O episódio é conhecido como overkill (supermatança) e ninguém tem dúvida que ocorreu, pois todas as outras hipóteses, em especial as climáticas, levantadas para explicar a rápida extinção, foram descartadas. Assim, apesar do tamanho enorme, estes bichos não tinham nenhum instinto evoluído para evitar o homem e representavam uma importante fonte de proteína para nossos ancestrais.

Isto é basicamente provado pelo fato de que, na África, as extinções nesta mesma época foram menores, pois como é o berço de nossa espécie, os animais já haviam sido selecionados para evitar aquele bípede cabeçudo que atuava em grupo. More »

nov 4

Um rápido olhar no mapa da África e é possível identificar países que destoam pelo desenho de suas fronteiras. A Namíbia, ao sul do continente, é um deles, pois sua fronteira leste, com Botswana e África do Sul, é uma linha reta na vertical (veja o mapa abaixo).

Mapa da Namíbia

Pode-se achar estranho, mas quem só vê o mapa não viu nada ainda. Que tal saber que até 1990 a Namíbia era colônia da África do Sul? Isto contrariava até mesmo a Corte Internacional de Justiça que em 1971 já havia declarado que o controle sul-africano era ilegal. Em 1990, os altos custos da ocupação (50 mil soldados), as pressões internacionais de dentro e de fora do continente, e a bancarrota interna do governo do apartheid, fizeram com que a então chamada, África do Sudoeste (South-West Africa), voltasse a ser Namíbia.

Mas isto ainda não é tudo de curioso neste país: os apenas 2 milhões de habitantes falam 45 línguas (!). Ainda bem que a língua inglesa unifica a nação, já que a alfabetização atinge 85% da população e as aulas do idioma de Sua Majestade são diárias. Bom pra eles, pois os alunos e professores da única universidade (Universidade da Namíbia na capital Windhoek) podem aproveitar mais facilmente a literatura científica, toda em inglês, e ainda viajar aos grandes centros mundiais e aprender novas técnicas sem o obstáculo do idioma (como eu, por exemplo).

Porém, estranho mesmo na Namíbia é sua costa. Com uma extensão de 1570 km e largura variando de 80 a 150 km, é um imenso deserto que cobre 15% de todo país. Praticamente não cai uma gota de água da chuva o ano todo, mesmo sendo à beira do mar. Por quê? More »

out 19
Battle at Kruger
icon1 Igor Alcântara | icon2 Bafana Divulga, Vídeo | icon4 10 19th, 2007| icon31 Comentário »

Aproveitando o post do Ronaldo sobre o Kruger National Park, eis um emocionante vídeo amador chamado “Battle at Kruger”, que atualmente é um dos mais visualisados no YouTube.

Desde que fora inserido em maio deste ano, já foram mais de 10 milhões de acessos, um fenômeno da internet. A popularidade do vídeo cresceu ainda mais com a veiculação do mesmo pela rede BBC no dia 09 de agosto.

Também pudera! A emocionante sequência que você verá a seguir é de causar inveja a qualquer documentarista. Uma cena rara até mesmo para os padrões do Kruger. O vídeo filmado pelo turista David Budzinski mostra a batalha entre um grupo de leoas, um crocodilo e uma manada de búfalos à cata de seu filhote, com um final surpreendente! Segundo o jornal Guardian Unlimited até mesmo um dos fundadores do YouTube elegeu o vídeo como favorito de todos os tempos.

Fantástico isso não!

out 18

O Kruger National Park é considerado um dos principais refúgios de vida silvestre do planeta. Localiza-se ao Nordeste da África do Sul, fazendo divisas com Moçambique, Zimbábue e Botsuana. Com 19.700 km2 é maior que muitas cidades, estados e países. O Kruger é dividido em 21 “ecozonas”, que englobam desde áreas alagáveis, matas arbustivas até florestas e savanas.

Acredito que a maior parte dos nomes destas fitofisionomias nem tem tradução para o português. De qualquer forma, tenho de admitir o lugar-comum: parece muito com o cerrado sensu strictu, cerradão ou até com os “campos rupestres”. Não é ofensa, nem erro grave, chamar estas formações brasileiras de Brazilian savanna. Acreditem: é uma grande honra para o cerrado.

Leões

Elefante

 

More »

out 16

Para os cientistas do IPCC (Painel Inter-Governamental de Mudanças Climáticas) os países tropicais sofrerão mais com o aquecimento global do que os temperados, porque estão localizados nas latitudes com maior probabilidade de serem atingidas pelas piores previsões, isto é, por temperaturas mais altas e pela diminuição da disponibilidade de chuva.

É claro que a base destas simulações é, para dizer o mínimo, curiosa. Antes que você pense que sou mais um dos malucos jogando pedra no IPCC, veja esta: foram observadas variações significativas em 28.671 sistemas biológicos usados no relatório do IPCC para subsidiar os modelos que prevêem o futuro quente do mundo. Quase todos 28.115 (98%) são na Europa e apenas dois (isto mesmo, eu disse dois) na África. Mas para os cientistas, “não há dúvidas”, que são os países africanos que mais padecerão com as mudanças climáticas (Hum…..) ou como quer a maioria das manchetes: “Países pobres sofrerão mais com aquecimento global”.

More »

jul 14

Este é meu último post made in South Africa. Parte da bagagem já está devidamente empacotada e a outra ainda vai dar muito trabalho. Desde outubro do ano passado toda semana coloquei um artigo neste espaço (com exceção do fim/início de ano).

Nem sempre fui muito feliz nos temas, ainda tenho dificuldades com as vírgulas (dá pra notar, né?), mas acredito ter passado algumas informações que considero relevantes sobre ciência, animais, África, Brasil e assuntos correlatos (ou não tão correlatos assim).

Tive o prazer de receber alguns elogios através dos comentários e outros tantos e-mails na mesma linha. É também com muita satisfação que vejo reproduzido alguns destes textos na Revista Bula, cujo site está sendo reformulado devido ao grande número de acessos que o fez sair do ar. Meu último artigo lá publicado tinha recebido mais de quatro mil visitas em apenas uma semana (o que não é muito pros padrões da revista…). More »

jun 17

O regime de segregação racial da África do Sul, que se iniciou na colonização, nos séculos XVI e XVII, se fortaleceu na primeira metade do século XX e finalmente se escancarou em 1948 com a eleição (só brancos votavam) do Partido Nacional.

O apartheid era fundamentado por quatro idéias principais: 1) A África do Sul é formada por quatro grupos raciais: brancos, mestiços (coloured), indianos e africanos, cada um com sua própria cultura; 2) os brancos, como a raça civilizada, tinham o direito ao controle absoluto do Estado; 3) o Estado não era obrigado a prover igual ajuda as raças subordinadas; 4) o grupo branco (africâner e as pessoas de origem inglesa) formava uma só nação, enquanto os outros eram muito divididos, por isto os brancos eram maioria.

Os muros do Apartheid More »

nov 19

Numa das mais clássicas definições sobre a ciência, o físico americano Richard Feyman (talvez o mais autêntico e bem humorado entre os cientistas de primeiro time) disse que ela “é um processo de aprendizado sobre a natureza em que, diferentes idéias sobre como o mundo trabalha são medidas contra a observação”. Sim, mas os sentidos e as aparências nos enganam. Só pra ficar no exemplo mais batido, dizer que a Terra é que gira em torno do Sol era, aparentemente, um contra-senso enorme. Foram observações mais acuradas que mostraram como “o céu funciona”.

Mas fazer a verdadeira ciência é lutar junto à fronteira do desconhecimento. Não é uma briga das mais fáceis, na verdade é uma guerra sem fim, que tem que ser travada por soldados-cientistas muito bem preparados e equipados (para gênios como Feyman, bastam lápis e papel…). Além do desconhecido, outro inimigo da ciência e talvez, mais forte, é a ignorância pura, simples e até desinteressada. Fatos já estabelecidos, teorias já comprovadas ou amplamente refutadas permanecem ignoradas pela maioria das pessoas.

Two Oceans Aquarium 4 - Floresta de kelps

More »

nov 5

Semana passada (29/10), enquanto os brasileiros votavam pra presidente, a Folha de São Paulo trazia dois artigos aparentemente não relacionados, mas profundamente intricados. Numa página, Marcelo Gleiser, considerado o melhor divulgador brasileiro da ciência, professor de Física nos EUA e, apesar de pesquisador, rico, chama a atenção para os caminhos da divulgação científica, que idealmente deveria ocorrer apenas após todo processo burocrático de avaliação do artigo por pares da mesma área, antes da aceitação e publicação em periódico reconhecido.

Infelizmente como os cientistas são demasiados humanos, eles acabam divulgando antes os resultados e as pessoas ficam meio sem saber se podem ou não confiar nele. Apesar de admirador de Gleiser, não dá pra concordar com todo o artigo. Primeiro que, apesar de fundamental para os cientistas, o público dito leigo não liga pra processo: como é mesmo aquela história que diz que leis e salsichas, se soubéssemos como são feitas não as obedeceríamos nem as comeríamos? More »

out 16

Paseeio Tubarão Branco I

Em Gassbaai (África do Sul), a duas horas da Cidade do Cabo, fomos passear “com” o tubarão branco. O barco de 12 metros (20 turistas, 100 dólares cada, 5 tripulantes) navegou por 40 minutos e parou no meio do nada. Os marujos começaram a jogar restos de peixe ao mar. É colocada na água uma gaiola, (três metros quadrados de área, dois de profundidade) para quem quiser ver o tubarão por debaixo da água (desculpe decepcioná-lo, mas com água a 14º C e a temperatura no barco a 12º C foi impossível para mim, uma criatura tropical, entrar nesta fria). Acompanhe na foto o momento que o tubarão chega pela primeira vez.

Passeio Tubarão Branco II

Quando o tubarão chega, ele pula na isca, que é então, puxada pelo capitão ou marujos, para que ele não a coma toda de uma vez. A isca é presa apenas com corda para não ferir ou espantar o animal. Realmente os saltos são impressionantes e os tubarões aprenderam a fazer isto para poderem caçar suas presas preferidas, as focas. Note como ele estava próximo a gaiola com os corajosos e congelados, turistas lá dentro.

Passeio Tubarão Branco III

Aqui o tubarão branco nada ao longo do barco com a isca na boca. Este não é o mesmo indivíduo que o anterior, aliás ao todo apareceram 3, mas eles não brigam entre si, pois todos sairíam perdendo e afinal brigar por carniça não deve valer a pena.

Passeio Tubarão Branco IV

Aqui de novo, com a isca. Parece até dócil….