nov 10

Leonardo Da Vinci, A Anunciação, c. 1474

É muito freqüente considerarmos o início da Ciência com a tríade, Copérnico (1473-1543)-Galileu (1564-1642)-Newton (1642-1727). Mais recentemente no livro Math and the Mona Lisa, o Prof. B. Atalay da Universidade de Mary (Washington) descreve a saga de Leonardo Da Vinci (1452-1519) que se adiantou, com seus escritos e desenhos, ao menos 50 anos às publicações de Copérnico (De revolutionibus orbeum coelestium, o sol é o centro do universo) e de Vesalio (De humani corporis fabrica, o primeiro tratado anatômico detalhado). Da Vinci seria, então, o primeiro cientista no sentido mais moderno do termo.

É no mínimo estranho, pensar em Leonardo como cientista, se o que chegou até nós, pesquisadores-caipiras, são suas geniais obras de artista. Como é que um cara que pintou a Última Ceia, a Mona Lisa e Anunciação do Anjo a Maria (acima, o meu preferido) pode ser considerado um cientista? Ah! Este mundo de “especialistas focados” sempre coloca dúvidas sobre o trabalho dos gênios que atuam em todas as áreas. Veja o caso, por exemplo, do maior poeta alemão de todos os tempos, Goethe, que desenvolveu um método para classificar organismos e que foi completamente ofuscado por suas obras literárias. Quem pode confiar na cientificidade de um poeta? Para ele poderíamos dizer: “Como cientista, o maior poeta. Como poeta, um dos maiores”.

ErastostenesMas deixemos os artistas gênios para uma outra hora. Voltemos aos “cientistas” ou pensadores antigos. No século III antes de Cristo (a.C.), 2300 anos atrás, Erastóstenes de Cirene estimou o diâmetro da Terra com extrema acurácia (12.800 km), provando pela primeira vez que o planeta era redondo, através das medições do comprimento e do ângulo da sombra de postes de mesma altura em dois lugares diferentes no dia do equinócio. Na mesma época, Aristarco de Samos (320-250 a.C.) chegara as mesmas conclusões guiado por outras observações: a posição de uma estrela é diferente dependendo da latitude do observador; o mastro do navio vai ficando menor, antes de desaparecer totalmente ao longe; durante um eclipse, a sombra da Terra na lua é esférica. Além disto, Aristarco tentou medir a distância do sol com a Terra e criara a teoria heliocêntrica (objetos giram em torno sol). Tudo isto, 800 anos antes de Copérnico!!! More »

out 22

Este blog tem a satisfação de apresentar sua primeira entrevista. Conversei por email com o professor de Química da UNICAMP Marcelo Ganzarolli, que juntamente com o médico Gilson Barreto, escreveu “A arte secreta de Michelangelo: uma lição de Anatomia na Capela Sistina” (Editora ARX). Neste livro primoroso, eles explicam que para cada uma das 32 cenas pintadas na Capela Sistina, há uma parte anatômica humana subjacente, incluindo querubins, escravos e “ignudis” que, ao redor, de algumas destas cenas, dão dicas do que elas representam.

Falei do livro no post anterior.

A entrevista é mais uma daquelas conversas que lamentavelmente não tive pessoalmente. Um doutor em química que gosta (e entende) profundamente de artes. Um daqueles gentlemen (ele é educado até com a arte moderna) que as universidades não formam mais, mas que ainda estão por aí, sabendo muito bem onde colocam seu talento, dedicação e paciência, incluindo o fato de parar tudo pra me dar a entrevista. É hora de flanar….

Professor Marcelo Ganzarolli

Se você se empolga com a ciência, não há como não se empolgar com as artes

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out 20

A relação entre arte e ciência, assunto cada vez mais explorado e debatido é certamente mais antiga do que vôos recentes de cientistas pelo mundo da arte. Richard Feynman, por exemplo, finalizou sua carreira de pintor já na primeira exposição, pois teve medo que seus quadros só tivessem valor por terem sido pintados por um Nobel da Física. Mas também o que ele queria? Que o levassem a sério como artista?

No início deste ano estive na Royal Society de Londres (como turista, claro…) e na sala onde a seleção natural de Darwin & Wallace foi defendida (foto abaixo), havia uma exposição de quadros de fellows famosos. Obras de John “Mente Brilhante” Nash e Winston Churchill estavam expostas lá. Não precisa ser um grande entendido para se felicitar com o fato que ambos brindaram a humanidade com outros serviços, que não a pintura. Muito tempo atrás na Alemanha, aconteceu o contrário. Wolfgang von Goethe, autor de Fausto, escreveu um tratado de classificação taxonômica e foi profundamente ignorado. Afinal, quem ia ligar pra um trabalho de ciência daquele que já era considerado o maior poeta alemão de todos os tempos? Já não bastava ser gênio na arte maior, a poesia?

Sala de Conferências da Royal Society

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