nov 2

Bafana Blog

Acabou o segundo turno das eleições municipais e o eleitor pôde escolher entre apenas dois candidatos. Entre duas opções igualmente satisfatórias para responder uma pergunta, qual você escolhe? William de Ockham (1285-1349) respondeu esta usando o seu próprio princípio metodológico de economia da explicação: “aquilo que pode ser explicado por menos premissas é explicado em vão por mais”.

Claro que o resultado de uma eleição reflete muito mais que o racionalismo do princípio conhecido por Navalha de Ockham: “entre duas respostas igualmente plausíveis para uma pergunta, escolha a mais simples”. Talvez, se este princípio fosse firmemente aplicado pelos eleitores, o candidato vencedor seria aquele que passasse a impressão que iria se meter menos na vida do cidadão. Mas, como o eleitor também busca um “salvador da Pátria”, então a resposta das urnas acaba sendo oposta a da navalha de Ockham. More »

set 26

No artigo anterior Ademir Luiz, dissertou sobre os problemas de um professor de História ao ensinar as crianças a evolução e os ancestrais da espécie humana. Segundo ele, alunos dizem não acreditar no processo de seleção natural e então estudam por obrigação, “já que aquilo não está nas Escrituras”.

Isto sinceramente me soa não como crendice sincera do aluno adolescente, mas sim como uma maneira de resistir ao estudo de uma matéria um pouco mais complicada do que simplesmente: “(….) Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou suas narinas com um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis, cap.2 v.7). More »

set 23


Apresentando, nosso grande amigo Ademir Luiz: Do desafio de ensinar História diante do fundamentalismo religioso.

Todo professor de História vive um dilema anual: como apresentar a matéria sobre o surgimento do homem sem ofender a gregos ou a troianos?

A escola é, ou deveria ser, uma instituição laica por definição. Muito mais do que uma difusora de ideologias a escola tem o dever e a vocação de ser uma difusora do saber, isenta de qualquer tipo de preconceito. Um livro didático nada mais é do que o substrato do conhecimento humano acumulado em anos, décadas, ou mesmo séculos, de estudos teóricos e empíricos realizados por incontáveis cientistas e homens de letras; alguns gênios, outros nem tanto, mas todos humanos, muito humanos, lidando com problemas tipicamente humanos. O que se publica para fins didáticos é tão somente o resultado do provado e comprovado destes esforços. Senão vejamos.

Em um livro de Química não existe lugar para o éter olímpico. Em um livro de Física o que se vê é matemática aplicada, puramente lógica, nunca teorias mirabolantes seguidas de explicações herméticas. Os livros de Biologia fazem questão de trazer fotografias ampliadas de seres microscópicos para que não se tenha dúvidas de que eles realmente existem. Os livros de Geografia sabiamente fazem o mesmo com os planetas e as galáxias, provando que de fato há muito mais espaço aí fora do que Horácio poderia imaginar. Tudo isto é liquido e certo, óbvio até. More »

jun 23

John Lukacs não é apenas um historiador. É um grande contador de histórias (O Duelo: Churchill x Hitler; Junho de 1941 – Hitler e Stálin; Churchill – Visionário. Estadista. Historiador) e, às vezes, proseador de histórias sobre histórias, como em O Hitler da História.

Lukacs é elegante, quase pedante, chegando mesmo a forçar o texto para inserir frases e expressões de efeito como: “(…) lembra a conhecida criada irlandesa que, questionada pelos vizinhos se as fofocas sobre a jovem viúva do final da vila eram verdadeiras, respondeu: ‘Não são verdades, mas suficientemente verdadeiras”” (Junho de 1941 – Hitler e Stálin).

Ele tem a percepção que a História (com H maiúsculo) é muito mais o resultado da visão, arrogância, capricho ou teimosia dos líderes do que de disputas entre esquemas ou sistemas de poder: “(…) a derrota final [de Hitler] pode ter sido predestinada por sua arrogância. Mas também, a arrogância é defeito mais de caráter do que de visão, e Hitler não era cego” (O Hitler da História). More »

jun 21

É um chavão, mas vá lá: normalmente quando se fala em África a maioria das pessoas vai logo pensando em hordas famélicas num ambiente árido e sem esperança. E então elas se perguntam se não têm culpa neste sofrimento, pois afinal, além da escravização de boa parte da sua força de trabalho, o ocidente colonizou seus países explorando suas veias abertas, para enriquecimento das nações além mar. Mas será que foi, ou continua, desta forma?

Robert Guest, editor de assuntos africanos para a The Economist em seu livro The Shackled Continent – Africa’s past, present and future (Ed. Macmilian, 280p., 2003, 11 libras e ainda não traduzido para o português, mas que poderia ter como título: “O Continente Acorrentado – O passado, presente e futuro da África”), tenta reverter a pergunta do porquê a África é tão pobre, para: por que a África é tão improdutiva? Por que mesmo representando aproximadamente 10% da população mundial este continente contribui com apenas 2% para o comércio mundial? Robert Guest morou em alguns países africanos durante três anos, e em 2004, após a publicação deste livro, ganhou o prêmio Bastiat de Jornalismo. Não sei se o prêmio é importante. Talvez seja. Mas o livro com certeza é. More »

mai 8

O crescimento econômico superior ao de vários países “esconde” a informação de que das 20 cidades mais poluídas do mundo 16 estão na China

Nos artigos anteriores (I e II) analisei as Sociedades do Passado, parte menos polêmica, do livro de Jared Diamond Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso. Na segunda parte, intitulada Sociedades Modernas, o problema de Diamond aumenta, já que não há mais o conforto das certezas paleontológicas sobre as sociedades antigas, ou ainda o resultado pronto e acabado para ser analisado pelo historiador distante e independente (hum…). Junte-se a isto outra dificuldade levantada pelo historiador John Lukacs em O Fim de Uma Era e que cai como uma luva para Diamond: a “pressão do futuro, ou, em termos mais apropriados, por nossa idéia e ou visão do futuro”. Diamond bate de frente, pois segue a premissa que para a mesma causa há um mesmo efeito, e na história (ambiental ou humana), nem sempre isto é verdade.

Neste livro, vale repetir, o autor tenta padronizar os casos de alguns povos em cinco possíveis fatores que contribuem para o colapso: dano ambiental, mudança climática, vizinhanças hostis, parceiros comerciais amistosos e as respostas da sociedade aos problemas ambientais. Ruanda, República Dominicana e Haiti, China e finalmente Austrália são as nações analisadas nesta segunda fase por Diamond. More »

abr 29

O jovem Matu’a, de ascendência nobre, bateu mais forte com seu machado de pedra e viu, aliviado, a queda da palmeira que faltava para montar o “trenó”. Logo em seguida, se deu conta da realidade e suspirou cansado do futuro recente: restava ainda rolar o moai para cima do trenó e arrastá-lo (sem rodas) para perto da praia a 10 km de distância. O mesmo moai que séculos depois se descobriria pesar 75 toneladas e que o leitor certamente ouviu falar e conhece a história, ao menos em parte.

Apesar dos pesares, Matu’a sabia da necessidade imperiosa da obra, pois, do contrário, o trabalho de seus súditos de entalhar o moai e o pukao (uma espácie de ‘chápeu’ colocado nos Moais) estaria perdido. Além disso, pelo menos 500 habitantes do clã que herdaria ali estavam para auxiliar no transporte e era preciso, mais do que nunca, dar exemplo de trabalho e determinação, já que alguns deles não andavam tão satisfeitos com a vida e ameaçavam o poder dos chefes. More »

abr 18

Discuti na semana passada que “Os Demônios” de Dostoiévski, escrito em 1870, foi profético ao tratar do caráter (ou falta de) de revolucionários e niilistas. Daí o nome do livro que nas primeiras versões no idioma de Camões foi traduzido como “Os possessos”. Esta diferença é explicada pelo tradutor da Editora 34, Paulo Bezerra: “o título original é que significa demônios (biês no singular), bem diferente de odierjímie (possessos)”.

Aqui uma pausa. Quando escrevo Dostoievski (sem acento agudo) o processador de texto do Word nada assinala, mas se uso o acento Dostoiévski, como nos livros da Editora 34, ele é sublinhado como palavra errada. Daí o acento no meu texto. More »

abr 10

Não há dúvida entre os biógrafos de Dostoiévski (1821-1881) que seu “Os Demônios”, escrito entre 1870 e 1872, é um panfleto contra os radicais russos e mais precisamente contra o niilismo. Publicado primeiramente em capítulos no O Mensageiro Russo, o autor dos já consagrados, “Notas do Subterrâneo” (1864), “Crime e Castigo” (1866) e “O Jogador” (1867), paralisou seu trabalho “A Vida de um Grande Pecador” no final de 1869, para se dedicar, em suas próprias palavras, à “uma questão contemporânea mais importante”.

Tratava-se das agitações políticas que começavam a abalar seriamente a Rússia dos anos 60 e 70 do século XIX. Lembremos que o próprio Dostoiévski esteve encrencado vinte anos antes (ver artigo anterior), mas agora a nova geração se radicalizara. Por exemplo, em abril de 1866, um estudante (Karalósov) atirou em Alexandre II, errando, porém, o alvo. Levado no ato à presença do czar, que pessoalmente lhe tomou a pistola, o estudante não mostrou nenhum arrependimento. More »

nov 1

Qualquer espécie de ser vivo, pode ser definida como um conjunto de animais que ao se reproduzirem deixam descendentes férteis. Uma maneira mais divertida e não de todo errada é dizer que “uma espécie é aquilo que um taxonomista competente diz que é”. Há ainda a espécie compreendida como um exemplar platônico (“ideal”) num vidro de laboratório ou numa exsicata no herbário. Todos os que forem iguais a este único indivíduo são da mesma espécie dele. Aquilo que não é tão igual é do mesmo gênero e assim por diante. Mexeu? Ou é bicho ou foi o vento.

Boas fotos e desenhos detalhados, além de uma “chave de identificação” com descrições de partes, e raspas e restos que interessam, auxiliam o taxonomista principiante a chegar em nível de espécie. Este modo de organização, que devemos à Linnaeus, é frequentemente repetido por escritores que também identificam textos ou parágrafos, como autênticos “Camões”, “Fernando Pessoa” ou “Cervantes”, espécimes raros, que deixaram mais saudosos admiradores do que descendentes férteis. No máximo, alguns filhos bastardos, que, como híbridos, não se reproduzem, ou de tão estéreis se reproduzem assexuadamente como escrevinhadores do rei de plantão nesta mundão de meu Deus…

Mas, como diria o colunista sem assunto, “não é isto que eu queria falar…”. Também não vou fazer como aquele personagem rodrigueano que se realmente pudesse falar o que pensava, durante o discurso na cova aberta do falecido, dissertaria antes sobre os enlevos da recém órfã…. Ainda hei de enquadrar estas páginas do “Almirante Nelson” e colocar na parede do meu escritório. De preferência, ao lado do “Passarinho” que Gerda Brentani pintou em 1970 (era disto que eu queria falar).

Gerda - Pequeno Bestiário Brasileiro 1969 Gerda - Pequeno Bestiário Brasileiro 1969 2 More »

jun 26

A década de 80 foi ruim para a economia da África do Sul. A vigilância das leis do apartheid tinham alto custo, a inflação estava acima dos 10% (ano), muitos brancos eram pobres e começaram a deixar o país em busca de dias melhores na Europa e EUA. A população negra crescia numa taxa muito superior à branca e havia crescentes embargos externos à economia sul-africana por causa do regime político, incluindo boicotes esportivos. Protestos continuavam dentro (com Winnie Mandela, principalmente) e fora do país. E então, o governo fez a mesma pergunta que Mandela no início dos anos 60: quais as opções? Neste caso: dialogar.

Tom Lodge, autor de “Mandela a critical life” (Mandela uma vida crítica, Oxford University Press, 2006, 274p.) explica que quando ele foi transferido do presídio da Prisão de Robben Island para Pollsmoor nos arredores da Cidade do Cabo, em 1982, membros do governo já antecipavam a possibilidade de negociar com os líderes do ANC, o partido dos negros, então na ilegalidade.

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