dez 6

Kurt Gödel participava das reuniões do Círculo de Viena, mas, decididamente não compartilhava com a maior parte das idéias positivistas ali discutidas. Wittgenstein era influente em tal Círculo, apesar de não aparecer por lá e, quando aparecia, não dava a mínima atenção ao que os outros falavam, preferindo ler, de frente pra parede e em voz alta, o poeta indiano Tagore (“a flecha durante o vôo grita: ‘sou livre, livre..’. Ledo engano, seu destino está traçado pela pontaria do arqueiro.”).

Rebeca Goldstein em seu Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel (Cia. das Letras 242p.) mostra que os dois cérebros não poderiam ser mais díspares. Wittgenstein era o ator do grande drama do gênio: cheio de tiques e manias, como bater na testa para despertar um insight filosófico, e sempre transpassando seu padrão de busca da verdade absoluta para o cotidiano. Por exemplo, ao visitar uma amiga que sofrera a retirada das amígdalas e lhe dissera que estava se sentindo como um cachorro atropelado, ele respondera: “Você não sabe como se sente um cão que foi atropelado”.  Como se percebe, Wittgenstein precisava ler muito mais poesia. More »

jun 23

John Lukacs não é apenas um historiador. É um grande contador de histórias (O Duelo: Churchill x Hitler; Junho de 1941 – Hitler e Stálin; Churchill – Visionário. Estadista. Historiador) e, às vezes, proseador de histórias sobre histórias, como em O Hitler da História.

Lukacs é elegante, quase pedante, chegando mesmo a forçar o texto para inserir frases e expressões de efeito como: “(…) lembra a conhecida criada irlandesa que, questionada pelos vizinhos se as fofocas sobre a jovem viúva do final da vila eram verdadeiras, respondeu: ‘Não são verdades, mas suficientemente verdadeiras”” (Junho de 1941 – Hitler e Stálin).

Ele tem a percepção que a História (com H maiúsculo) é muito mais o resultado da visão, arrogância, capricho ou teimosia dos líderes do que de disputas entre esquemas ou sistemas de poder: “(…) a derrota final [de Hitler] pode ter sido predestinada por sua arrogância. Mas também, a arrogância é defeito mais de caráter do que de visão, e Hitler não era cego” (O Hitler da História). More »

mai 8

O crescimento econômico superior ao de vários países “esconde” a informação de que das 20 cidades mais poluídas do mundo 16 estão na China

Nos artigos anteriores (I e II) analisei as Sociedades do Passado, parte menos polêmica, do livro de Jared Diamond Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso. Na segunda parte, intitulada Sociedades Modernas, o problema de Diamond aumenta, já que não há mais o conforto das certezas paleontológicas sobre as sociedades antigas, ou ainda o resultado pronto e acabado para ser analisado pelo historiador distante e independente (hum…). Junte-se a isto outra dificuldade levantada pelo historiador John Lukacs em O Fim de Uma Era e que cai como uma luva para Diamond: a “pressão do futuro, ou, em termos mais apropriados, por nossa idéia e ou visão do futuro”. Diamond bate de frente, pois segue a premissa que para a mesma causa há um mesmo efeito, e na história (ambiental ou humana), nem sempre isto é verdade.

Neste livro, vale repetir, o autor tenta padronizar os casos de alguns povos em cinco possíveis fatores que contribuem para o colapso: dano ambiental, mudança climática, vizinhanças hostis, parceiros comerciais amistosos e as respostas da sociedade aos problemas ambientais. Ruanda, República Dominicana e Haiti, China e finalmente Austrália são as nações analisadas nesta segunda fase por Diamond. More »

abr 16

É regra que os cadernos culturais da grande mídia impressa dedicam-se aquilo que é “popularmente” conhecida como cultura, isto é, as ciências humanas, entendendo aqui quase que tão somente a Literatura, contemporânea ou não, a Sociologia, de algum fenômeno recorrente tido como alta novidade, e em menor grau, a Filosofia, que por vezes é chatamente ideologizada. É o pensamento se repetindo como farsa…

Mais recentemente os cadernos têm aberto espaços para a “divulgação científica”, ocupados geralmente por algum pesquisador que se acha apto à tarefa, ou mesmo um jornalista que “gostaria de ter sido cientista”. Apesar destas honrosas exceções, o fato é que as ciências naturais (Exatas e Biologia) nunca são vistas como parte da cultura, inclusive seu legado é chamado em alguns círculos como “terceira cultura”. More »

abr 10

Não há dúvida entre os biógrafos de Dostoiévski (1821-1881) que seu “Os Demônios”, escrito entre 1870 e 1872, é um panfleto contra os radicais russos e mais precisamente contra o niilismo. Publicado primeiramente em capítulos no O Mensageiro Russo, o autor dos já consagrados, “Notas do Subterrâneo” (1864), “Crime e Castigo” (1866) e “O Jogador” (1867), paralisou seu trabalho “A Vida de um Grande Pecador” no final de 1869, para se dedicar, em suas próprias palavras, à “uma questão contemporânea mais importante”.

Tratava-se das agitações políticas que começavam a abalar seriamente a Rússia dos anos 60 e 70 do século XIX. Lembremos que o próprio Dostoiévski esteve encrencado vinte anos antes (ver artigo anterior), mas agora a nova geração se radicalizara. Por exemplo, em abril de 1866, um estudante (Karalósov) atirou em Alexandre II, errando, porém, o alvo. Levado no ato à presença do czar, que pessoalmente lhe tomou a pistola, o estudante não mostrou nenhum arrependimento. More »

nov 3

Cartoon Olavo de Carvalho

Dispenso apresentações a uma das personalidades mais lúcidas e produtivas deste país. São mais de 20 livros e um sem-número de artigos publicados. Não concordo com tudo que ele fala, mas faço questão de ouvir (e ler) o que ele tem a dizer.

E na missão de divulgar e disseminar o conhecimento aqui vão alguns links para ler e ouvir o que tem a dizer este integralista, conservador e “imbecil” filósofo brasileiro.

Página de Olavo de Carvalho: http://www.olavodecarvalho.org/

Site do coletivo virtual da qual é co-autor: http://www.midiasemmascara.com.br/

True out Speak, seu programa semanal de rádio.

Ouça a última edição:

 

Acesse o site e faça o download das edições anteriores: http://www.blogtalkradio.com/olavo

out 22

Este blog tem a satisfação de apresentar sua primeira entrevista. Conversei por email com o professor de Química da UNICAMP Marcelo Ganzarolli, que juntamente com o médico Gilson Barreto, escreveu “A arte secreta de Michelangelo: uma lição de Anatomia na Capela Sistina” (Editora ARX). Neste livro primoroso, eles explicam que para cada uma das 32 cenas pintadas na Capela Sistina, há uma parte anatômica humana subjacente, incluindo querubins, escravos e “ignudis” que, ao redor, de algumas destas cenas, dão dicas do que elas representam.

Falei do livro no post anterior.

A entrevista é mais uma daquelas conversas que lamentavelmente não tive pessoalmente. Um doutor em química que gosta (e entende) profundamente de artes. Um daqueles gentlemen (ele é educado até com a arte moderna) que as universidades não formam mais, mas que ainda estão por aí, sabendo muito bem onde colocam seu talento, dedicação e paciência, incluindo o fato de parar tudo pra me dar a entrevista. É hora de flanar….

Professor Marcelo Ganzarolli

Se você se empolga com a ciência, não há como não se empolgar com as artes

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out 20

A relação entre arte e ciência, assunto cada vez mais explorado e debatido é certamente mais antiga do que vôos recentes de cientistas pelo mundo da arte. Richard Feynman, por exemplo, finalizou sua carreira de pintor já na primeira exposição, pois teve medo que seus quadros só tivessem valor por terem sido pintados por um Nobel da Física. Mas também o que ele queria? Que o levassem a sério como artista?

No início deste ano estive na Royal Society de Londres (como turista, claro…) e na sala onde a seleção natural de Darwin & Wallace foi defendida (foto abaixo), havia uma exposição de quadros de fellows famosos. Obras de John “Mente Brilhante” Nash e Winston Churchill estavam expostas lá. Não precisa ser um grande entendido para se felicitar com o fato que ambos brindaram a humanidade com outros serviços, que não a pintura. Muito tempo atrás na Alemanha, aconteceu o contrário. Wolfgang von Goethe, autor de Fausto, escreveu um tratado de classificação taxonômica e foi profundamente ignorado. Afinal, quem ia ligar pra um trabalho de ciência daquele que já era considerado o maior poeta alemão de todos os tempos? Já não bastava ser gênio na arte maior, a poesia?

Sala de Conferências da Royal Society

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