mar 26

Turing e as Maçãs

Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático Alan Mathison Turing matriculou-se numa organização de defesa que aceitava voluntários. Quando perguntado no formulário se compreendia que a partir daquele momento, estava sujeito as leis militares, respondeu não. Com o treinamento, tornou-se um exímio atirador, mas não participava das paradas e lhe foi pedida uma explicação. A dele era simples como a resolução de uma equação de primeira ordem: como havia respondido não no questionário da matrícula, ele não era um soldado e não devia explicações.

Nem por isto o jovem de 28 anos deixou de ajudar os ingleses na Guerra. E que ajuda! Com uma vasta teoria matemática na cabeça, já comprovada durante seu curso na Universidade de Cambridge e depois com seu trabalho: “Sobre os números computáveis, com uma aplicação aos problemas da decisão” (confira abaixo), realizado em Princeton, no qual delineava o conceito de uma máquina hipotética de computação universal (que chamamos hoje de computador), Turing foi parar no Departamento de Comunicações do Ministério de Relações Exteriores e sua missão era, nada mais nada menos, que desvendar os códigos secretos das mensagens alemãs. More »

dez 6

Kurt Gödel participava das reuniões do Círculo de Viena, mas, decididamente não compartilhava com a maior parte das idéias positivistas ali discutidas. Wittgenstein era influente em tal Círculo, apesar de não aparecer por lá e, quando aparecia, não dava a mínima atenção ao que os outros falavam, preferindo ler, de frente pra parede e em voz alta, o poeta indiano Tagore (“a flecha durante o vôo grita: ‘sou livre, livre..’. Ledo engano, seu destino está traçado pela pontaria do arqueiro.”).

Rebeca Goldstein em seu Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel (Cia. das Letras 242p.) mostra que os dois cérebros não poderiam ser mais díspares. Wittgenstein era o ator do grande drama do gênio: cheio de tiques e manias, como bater na testa para despertar um insight filosófico, e sempre transpassando seu padrão de busca da verdade absoluta para o cotidiano. Por exemplo, ao visitar uma amiga que sofrera a retirada das amígdalas e lhe dissera que estava se sentindo como um cachorro atropelado, ele respondera: “Você não sabe como se sente um cão que foi atropelado”.  Como se percebe, Wittgenstein precisava ler muito mais poesia. More »

nov 28

É velha a piada, mas vale à pena recordar. Dois físicos estavam voando de balão (gastando dinheiro do CNPq) estudando a forma das nuvens, quando se perderam (típico…) e foram cair num campo deserto muito distante do ponto de pouso. Um homem flanava por ali. Os físicos mais que depressa: “Por favor, meu senhor, sabe onde estamos?”. O caminhante respondeu após intermináveis trinta minutos: “Num balão”. Um dos físicos perguntou-lhe: “O senhor é matemático, não é?”, no que o homem indagou: “Sou. Como você sabe?”. O físico não o perdoou: “Bem, o senhor demorou pra responder; deu uma resposta exata e por último, mas não menos importante, sua resposta não serve pra nada!”.

Pra que serve a matemática? Bem, se for utilizada para alguma coisa, os matemáticos mais puros lhe dirão que não é mais matemática, podendo ser contabilidade, economia, biomatemática, porém, não é mais matemática, aquele assunto de que tratam os matemáticos (“puros”) que têm sempre a sensação de estar descobrindo verdades objetivas pela razão, e não apenas construindo sistemas. More »

jun 13

… Assim, a ciência natural atual nasce indissociável à matematização de seu objeto de estudo e à partir de então, começa a ser construído o abismo que até hoje separa as ciências “duras” (exatas e naturais) das ciências “moles” (ciências humanas). Estas são incapazes de previsões precisas e por isso muita gente acha que, por exemplo, História não é ciência.

Neste sentido, em Guerra e Paz, Tólstoi filosofa sobre a matemática na história. Assim, como a integral é a somatória dos infinitésimos valores da derivada de X, o resultado final da história da humanidade seria a somatória das infinitésimas ações de cada pessoa. Felizmente a natureza do Homem é complexa demais para ser matematizada, diferente dos corpos celestes de Galileu, de populações de laboratório, dos alelos do cromossomo, ou ainda de estoques pesqueiros. More »

jun 10

O meu negócio é número” repetia uma personagem do humorista Jô Soares (no tempo que ele era engraçado) para ironizar o então ministro – forasteiro da Agricultura, o economista Delfim Neto. Afinal a Economia é uma ciência exata ou não? Roberto Campos que tem uma substancial obra econômico-política disse certa vez que os Ensaios Analíticos de Mário Henrique Simonsen era o livro que ele gostaria de ter escrito. Neste, os assuntos vão desde a associação entre matemática e música, passando pela teoria da relatividade e culminando claro, com economia (fico devendo uma resenha deste excepcional livro).

A Economia já foi denominada como a ciência irmã da Ecologia. A etimologia das palavras é similar: “nomia”: manejo, “logia”: estudo, “eco”: casa. Assim enquanto a Ecologia é o estudo da casa, a Economia trata de seu manejo. Uma das formas mais eficazes na conciliação destas disciplinas, buscando desenvolvimento e preservação, é através do uso de modelos matemáticos que são simplificações do mundo real, e às vezes servem como a hipótese nula para cientistas nos mais diversos campos do saber. Aliás, foi um destes modelos que auxiliou grandemente a Biologia e, posso dizer, o pensamento humano. More »

abr 24

“A divisão entre a matemática pura e a matemática aplicada está cada vez menor com o uso dos computadores e não é impossível que a ficção dos números se torne realidade”

O Homem Que Calculava, de Malba Tahan (Editora Record) é um clássico da literatura juvenil que está em sua 64ª edição. É provável que tenha alcançado mais leitores que alguns dos principais e aclamados livros de Monteiro Lobato, outro autor brasileiro que se dedicou ao público jovem. Sim, ao contrário do que muita gente pensa, Malba Tahan não nasceu num oásis longínquo em 1885, mas é apenas o pseudônimo do professor de matemática Júlio César de Mello e Souza, carioca que viveu entre 1895 e 1974.

Esta agradável confusão foi criada por ele mesmo com o auxílio do poderoso Irineu Marinho que começou a publicar em 1925, no jornal A Noite, a coluna “Contos de Malba Tahan”. O sucesso foi enorme e, autorizado por Getúlio Vargas, Júlio César conseguiu uma carteira de identidade com o próprio pseudônimo! Apesar disso, alguns de seus relatos biográficos dizem que ele se arrependia de não seguir a carreira militar do pai, pois pelo menos já “estaria arranjado financeiramente”. (E me pergunto se é verdade, pois não creio que ele contribuísse com as Forças Armadas tanto quanto contribui com a literatura juvenil, pois este professor incansável era detentor de uma didática e dedicação pacientes e eternas ao ensino.) Morreu sozinho num hotel, provavelmente de infarto, depois de falar a normalistas de uma escola do Recife sobre a arte de contar histórias. More »